Capítulo 8 – A volta de Haydee.

“O poder primordial, aquele carregado por gerações familiares, ainda é usado como delimitador em sistema de Castas em alguns povoados, apesar daqueles que o seguem, envergonharem-se de tal ato.” – Way Vutanni, antropólogo grekilano.

JÁ ERA NOITE e eles haviam passado por algumas vilas no decorrer do caminho para o topo da montanha. A estrada era toda iluminada por tochas, trabalho feito pela população local, constituída por homens e thonzes humildes vestidos com o que havia de mais simples nas lojas do mercado por ali.

O ambiente era mais agradável que o normal, mesmo com a serenidade e frescor da noite, e a temperatura amena da ejámule. Havia cachoeiras, consequência do derretimento repentino da neve na montanha.

Sob a iluminação laranja de Kìrbept, segunda lua de Aquala, eles tinham a carruagem ainda puxada por um par de peixes azuis tão parrudos quanto dois cavalos. Corsena, a égua de Thomas, voava no céu e adentrou o bosque, de onde não saiu mais, e logo depois eles foram parados por dois homens na estrada de tochas.

– Boa noite. – eles se apresentaram para o cocheiro, cuja aparência não levava a imaginar boa coisa. – Podemos checar?

– Sem sombras de dúvidas, meus rapazes.

Os dois policiais vestiam roupas de algodão e aço pesado que cobriam o corpo todo. Usavam dois cajados encurtados, um em cada lado do cinto, cuja pedra da ponta permanecia flutuando e ardendo em chamas na frente dos peixes para que fossem parados.

– Com licença. Boa noite, eu sou Ghermo e ele, Chewneno. – o primeiro policial se apresentou. – Antes que perguntem, não precisam se preocupar, só estamos verificando a segurança daqui.

– Devido aos atuais ataques em Longamínis, estamos cuidando de Émi’Lian, para que não nos chegue nada de ruim – intrometeu-se Chewneno, homem de cabeça raspada e barba negra grande.

– À vontade! – disse Ophelia.

– Podem colocar as cabeças para trás, por gentileza? – perguntou Ghermo. – Não queremos que se queimem.

Todos sentaram-se direito nas poltronas e a pedrinha do outro cajado flutuou janela adentro, e quando pairou no centro dos garotos, ardeu em chamas verdes. Então, os olhos do policial seguiram todos os cantos da carruagem.

– Não há nada. – cochichou Chewneno no ouvido de Ghermo.

– Sem querer ser rude, – disse Ophelia, com a cabeça na janela e olhar fixado no homem. – por quê haveria alguma coisa aqui? Vocês querem deter o mau, eu presumo. Mas como fariam isso se os Meonans não usam nenhum tipo de material para atacar, eles só usam a mente.

– Minha jovem, sinto lhe falar mas essa semana outros de Émi’Lian e Longamínis já encontraram armas poderosas como aquelas encontradas na Terra.

– Armas… com gatilho e tudo mais? – indagou a menina.

– E muito pior. Se usarem essas armas, Aquala poderá sofrer, e isso é grave. Por isso usamos o fogo verde, ele denuncia se há metal na carruagem.

– Então podemos continuar? – perguntou a menina, delicadamente.

– Por favor, e desculpem o incômodo.

O fogo vermelho diante dos peixes se apagou, e eles puderam retomar a viagem.

Rosana, principalmente, permaneceu bem alerta quando os policiais falaram sobre as armas. A mulher nunca imaginou que a situação estava tão agravada quanto daquela forma. Os garotos podiam ter em mente que o assunto era delicado, mas não como a sra. Guinard acreditava, não como os mais velhos sabiam. Somente quem já viveu em Aquala saberia o poder que as armas tem sobre toda a terra aqualaeste. Se Baltazar e Lutile ainda não sabiam daquela notícia, Rosana os contaria quando chegassem ao Instituto.

Eles passaram por outras vilas e rios que desembocavam em quedas d’água altíssimas. Aqueles dias estavam diferentes dos normais, os aqualaestes em Longamínis eram vigiados vinte e nove horas por dia pelos Protetores, e quando a carruagem atingiu o topo da montanha, eles olharam o céu estrelado. Ninguém recusou a se hipnotizar pelas ondas marinhas que eram desenhadas pelas estrelas e as duas luas, uma de cada lado. Não havia nenhuma lula colossal ou baleia com Protetores os vigiando. Ali eles que estavam de olho em tudo.

Quando puderam voltar à realidade, avistaram o Bosque Abençoado mais a frente. Era um emaranhado de árvores grandes, cipós e mais árvores nascendo de outros troncos, como se fossem galhos. Havia um caminho para dentro do bosque que deveria ser totalmente escuro, mas a luz azul do céu criava feixes que atravessavam as folhas e chegavam a tocar o chão de terra, iluminando-o divinamente.

Os garotos suspiravam com o que viam, era tanta beleza numa grama que parecia soltar luz por ela mesma com tamanho brilho que refletia. Eles avistavam as casas nas árvores e as pontes de madeira onde ainda passavam algumas crianças, homens e mulheres. Dava para ver que a segurança lá era impecável, pois thonzes brincando nos galhos e guardas humanos que dançavam nas fogueiras interagiam como se as espécies fossem uma só. Quanto mais adentraram, mais beleza viam. Eles, com as cabecinhas fascinadas para fora das janelas e do teto, assistiam às águas brilhantes que circulavam entre os pés das árvores. A correnteza, pelos troncos, as faziam subir como se tivessem vida própria, passando pelas casas e subindo ainda mais para alcançar mais outras, até que as gotas fossem jorradas no topo dos galhos tão lentamente que parecia não haver gravidade.

A carruagem, puxada pelos peixes, começou a andar lentamente com o embasbacar daquele lugar. Thomas e Laura, levantados e acima do estofado, sentiam as gotas tão brilhantes que pareciam pequenas estrelas os tocando. Eles abriram os braços e fecharam os olhos, já que aquela sensação de pureza eles poderiam procurar em todos os lugares, mas só encontrariam lá.

Quando abriram os olhos, conseguiram ver uma luz celestial de cima e sentir os pingos tocarem seus narizes. As casas de madeira nas árvores chegavam a estar altíssimas, e não tinham portas nem janelas, apenas aberturas para os thonzes passarem e olharem para fora.

Um pouco adiante, ainda havia mais subida. Ao contrário do que eles pensaram, a montanha ainda não tinha terminado, e depois de uma colina, puderam enxergar mais árvores e, no meio, uma casa. Apenas uma casa. E, quanto mais eles se aproximavam, mais perceberam o tamanho daquela mansão. Parecia um castelo. Algo bom. Continha uma beleza e paisagem marcantes, não só pelo bosque que a cercava, mas também pelo conhecimento de sua origem. Era como se o Instituto Flintch fosse feito para espalhar bondade e acabasse por ficar com parte dela fixada em suas paredes e muros.

– Por quê fica tão longe? – perguntou Felipe, quando a carruagem já havia parado e Thomas, descido. Estava hipnotizado com a beleza diante dele. – Não deveria ser um lugar para ajudar e cuidar de pessoas que precisavam?

– Não percebeu? – falou Sofia, pronta para descer também. – Os pais de Thomas construíram aqui porque é mais perto de Phoerios.

– Assim, nosso deus poderia olhar todos os doentes e ajudar a cuidar deles. – respondeu Guido, com os pés descalços na terra fria e cintilante.

– Como as pessoas chegavam aqui? – perguntou Felipe novamente, agora em pé junto a todos e andando pela grama macia.

– Filho, – a sra. Guinard pôs as mãos nos ombros do menino. – os Flintch resolveram esse problema construindo uma espécie de elevador.

– Elevador? Como, mãe?

Rosana foi até o jardim do Insituto, que não dava para ser distinguido, e mostrou uma cerca circulando um buraco no chão.

– Mesmo para aqualaestes tão poderosos quanto eles, quebrar uma montanha havia demorado mais de dois anos.

Os garotos se aproximaram de onde a mulher estava. Ela apontava para um furo redondo e escuro no chão. Não dava para ver o que havia lá embaixo.

– Existia uma corda feita de cipós de amanduyecteira que trazia as pessoas para cá. Era o modo mais rápido de se chegar. Teríamos vindo por aqui se ainda houvesse essa corda.

Rosana podia observar o Instituto Flintch que, em cada cantinho, encontraria uma lembrança diferente. Ela fechou os olhos e viu Sandra e Robert de mãos dadas a chamando para entrar pela porta. Aquela mansão estava completamente diferente do que antes era, assim como a relação com os pais de Thomas na época. A sra. Guinard ficou emocionada quando se aproximou mais ainda das pilastras na frente do portão da casa.

Os meninos observavam a reação da mãe de Felipe. Uma tristeza, por um instante, tocou Rosana. Ela sentia-se sozinha a todo momento, mesmo estando com seu filho e entre amigos. O coração da mulher bateu como antigamente, quando ela podia escutar a voz de Sandra a chamar para a colheita do almoço ou para passear, também, na companhia dos padrinhos de Thomas. Eles eram melhores amigos desde aquela época, quando somente planejavam criar famílias. Naquele tempo, elas já imaginavam que seus filhos seriam inseparáveis como eles. E acertaram.

A cada passo da sra. Guinard, uma lembrança diferente lhe vinha à cabeça. Ela lembrava de quando Maldo e Haydee ainda eram casados. Eles viviam dançando pelo jardim com Baltazar, que ainda era um tigre jovem.

Um pedaço de Rosana estava lá, escondido nas profundezas de um passado tão feliz e inesquecível. Ela subiu os degraus e, sem medo, encostou na porta do Instituto, que se abriu ao menor toque de seus dedos. Por um momento, ela havia voltado no tempo, onde as pessoas que mais amava viveram felizes o máximo que conseguiram. Eles não estavam mais lá. O tapete vermelho estava escuro e não tinha mais Sandra passando por cima dele para mostrar os vestidos que ganhava de presente de Robert.

Todos os garotos seguiam Rosana Guinard em silêncio, principalmente Thomas, que permanecia quase que colado na mulher.

– Foi aqui… – a mãe de Felipe tampou o rosto com as mãos. Chorando, parou diante da escuridão dentro da mansão sobre um tapete vinho e sujo. Thomas a abraçou forte. – Os melhores momentos da minha vida eu passei ao lado de Sandra, e não tive nem a oportunidade de agradecer.

Rosana secou os olhos e procurou uma alavanca na parede perto dali. Quando puxou-a com força, o atrito na pedra criou uma pequena faísca que tocou num fio branco bem parecido com um cipó. O brilho do clarão nos pés da mulher iluminou aquele fio, que estava preso em todos os cantos do Instituto Flintch.

Primeiramente, a luz incandescente da linha tornou possível os garotos verem o salão de entrada. Era imenso. O chão era de pedras finas como o mármore e o marfim. O tapete vermelho se extendia até uma escadaria no final, onde se dividia em duas, uma para a direita e outra para a esquerda.

O fio iluminava em dourado os cômodos e os tetos altíssimos com lustres quebrados, mas ainda assim eram magníficos, feitos de zarédias, pedras mais preciosas que ouro. Grandioso, exuberante, espetacular, luxuoso, soberbo, opíparo e, acima de tudo, antigo lar de pessoas carentes que podiam se inebriar com tamanha magia que acomodava cada pedacinho de seus corações. Aqueles que um dia acreditaram na família Flintch estavam marcados na história de um sonho que se tornou realidade.

Mesmo com a estrutura arquitetônica da superfície interior estando quebrada e rachada pela ação do tempo, nada poderia tirar a satisfação que Rosana teve ao rever a mansão. Foi triste lembrar de tantos momentos com Sandra e ter a certeza de que nada voltaria.

– Vamos conhecer os quartos? – a mulher virou-se para os garotos novamente, porém forçando um belo sorriso. O redor de seus olhos estava úmido, dava para reparar o que ela realmente sentiu quando entrou no Instituto. Thomas não demonstrou, mas estava muito feliz por dentro, pois, com aquelas lágrimas, ele havia entendido o significado que seus pais tinham para a sra. Guinard. Por um lado, as recordações eram boas, mas o fato de serem apenas lembranças o entristecia.

– Você se lembra de tudo? Onde fica os quartos? – perguntou Thomas, enquanto ainda delirava-se com o tamanho do lugar.

– Temos vinte e cinco opções, pelo que eu me lembre. – Rosana arrumava as malas, enfileirando-as com a ajuda de Guido, Felipe e Nadjo. – Obrigada, meninos.

– Sinto que vou me perder. – brincou Laura, e segurou a mão de Thomas. – Vamos andar.

– Esperem. Eu os guiarei, ainda lembro de alguma coisa. Aos poucos eu devo lembrar de cada cômodo, afinal, são tantos anos…

Quando Luka adentrou o Instituto Flintch feito um potuco louco, Rosana começou o trajeto com os garotos a seguindo. Havia segredos como vários objetos tão grandes quanto eles cobertos por lençóis brancos. Estavam espalhados por todo o lugar, como se fosse um mausoléu. Eram peças de uma vida guardadas e prontas para mudança, porém paradas no tempo.

Eles andavam e tocavam nos panos empoeirados. Thomas, que volta e meia tinha rinite, ficou com o nariz vermelho e congestionado. A luz da linha dourada que iluminava o interior da mansão possuía um brilho reluzente que tremeluzia, mas não apagava. Subiram a escadaria e seguiram Rosana, que ia para o segundo andar à esquerda, cada um segurando suas malas quando Frederico já não tinha mãos para tantas bagagens.

– Esse lugar está precisando de uma faxina urgente. – comentou a sra. Guinard, quando ouviu um espirro de Thomas.

– É gigante, não vamos dar conta. – ele disse.

– Seus pais cuidaram de muitos doentes e ainda deixavam tudo isso bem limpo. O chão e até o teto brilhavam. Podemos conservar essa casa, mas com o tempo.

– Obviamente seria impossível acordarmos amanhã e limparmos tudo no mesmo dia. – eles andavam, acompanhados de todos os outros.

– Com certeza. E, além do mais, amanhã pela manhã Arbinelo Treki deve chegar, e logo o treinamento vai começar.

O garoto havia se esquecido daquele compromisso, e quando Rosana o lembrou, um peso caiu sobre suas costas. Ele se sentiu acomodado, afinal tinha o romance com Laura, a beleza do lugar e seus amigos ainda o acompanhando. Ele queria tanto ir atrás dos duyoktu que, ao lembrar que teria trabalho árduo no dia seguinte, ficou com uma baita preguiça.

– Estou um pouco assustado com essa história de um senhor vir de tão longe para me ajudar, me ensinar e me direcionar a um caminho tão perigoso. – o menino desabafou. – Parece que ele vem para me levar à morte.

– Não diga uma coisa dessas! – intrometeu-se Felipe. – Arbinelo vem exatamente para que você não sofra.

– Mas já estou sofrendo com o mistério do futuro. Não sei o que ele me aguarda.

– O poder que esse mistério tem sobre nós é um sofrimento bom se você acredita que o futuro será bom. Se for pessimista, aí sim você terá um sentimento ruim. – explicou Rosana. – Pense em coisas boas para que elas aconteçam a você.

Eles chegaram a um corredor imenso e escuro. Havia um quarto logo perto deles, que era pequeno como um armário de vassouras e tinha lampiões para serem acesos. A sra. Guinard pediu para que seu filho os pegasse, e então ela esfregou a ponta dos dedos indicadores na palma da outra mão. O pequeno atrito fez sair uma chama que acendeu todas aquelas armações de cerâmica e vidro num só toque. Naquele mesmo instante, a corda de luz dourada apagou e eles só permaneceram com a iluminação dos lampiões.

Houve gritos instantâneos, principalmente de Laura e Sofia. Thomas, por pouco, não ficou surdo, assim como Felipe, só que esse já estava agarrado à cintura da mãe.

– Dwinler da luz, nos acuda! – berrou Ophelia, somente com o rosto laranja visível graças à chama. – O quê aconteceu?

– Nadjo, Laura, Guido, estão todos bem? – perguntou Rosana, tentando ficar calma. – Deve ser o mecanismo do primeiro andar. Deve ter saído do lugar e parado de rodar.

– Também estou aqui! – falou o cocheiro.

– Venha Fred! – Ophelia o chamou, segurando o braço do homem. Na hora do medo todos eram mais íntimos.

Guido, com um dos lampiões na mão, agachou naquele armário de vassouras para pegar mais um e entregar a Nadjo. Foi nesse instante que ele, ao tocar na corda presa na cerâmica, reparou que o armário se estendia, e que eles estavam num quarto. As paredes perto deles eram nada mais, nada menos, que grandes mesas empilhadas e disfarçadas. O menino ainda viu, em questão de segundos, a outra parte do cômodo, que mais parecia ser escondida, tinha desenhos e textos em papéis pregados em todos os cantos. Ali não havia mais espaço para um quadro sequer.

O que seriam aquelas coisas escritas? Seriam alguns Certeiros antigos da família? Esperto, o menino, ainda agachado, logo reparou que as folhas de papel não tinham sofrido com a ação do tempo e estavam novas, com a exceção dos desenhos de monstros bizarros e enigmáticos, além de discos voadores cheios de engrenagens. Guido conseguiu ver tudo perfeitamente em menos de dez segundos, e ele ficou bem confuso, porém não achou necessário contar nada a alguém.

Um vento passou por trás deles.

– O que foi isso? – perguntou Laura, ao olhar para Thomas com o fogo do lampião aquecendo o rosto.

– Deve ser uma corrente de ar. – disse Nadjo, não acreditando nele mesmo.

Todos eles logo se entreolharam.

– Não acho que seja uma corrente de ar. – falou Ophelia, mais próxima deles e agarrada aos meninos.

– O que acha que pode ser? Um fantasma? – ironizou Felipe, grosseiro como na maioria das vezes.

– Esse é realmente o seu filho, sra. Guinard? – a gordinha falou para Rosana, apontando o dedo ao garoto. – Não me parecem iguais psicologicamente.

– Psicologicamente? Ah, por favor, se for falar de mim fale direito. – dizia ele. – Não sabe nem fazer alguém se sentir mal.

– Não era essa a minha intenção. – Ophelia esticava o pescoço para frente ao falar com tom de superioridade.

– Já que não era sua intenção, devia ter ficado calada.

– Fiquem quietos! – mandou Guido. – Vocês estão sentindo?

– Acho que estou, – confirmou Thomas. E então falou baixinho. – são passos, não são?

– Sim, são. – o garoto sussurrou. – Alguém precisa ir lá embaixo e puxar a alavanca novamente. Alguém se habilita?

– Eu vou com Luka e Sofia – Felipe voluntariou-se.

– Então vai lá, valentão! – cochichou Ophelia.

– Vá sozinho! Não vou descer nessa escuridão. – Sofia impôs-se.

– Tanto medo pra quê? Já viram que tudo aqui perto é bem seguro. – o garoto disse, virando-se contra as luzes dos lampiões. – Já volto, mesmo achando que devíamos ir todos juntos, o que seria justo.

Felipe queria mais é se mostrar, mesmo o medo lhe assombrando até os dedões dos pés. Ele desceu as escadas com as sombras se formando em sua frente a cada passo, como se elas aparecessem somente para causar terror. As silhuetas dos lençóis surgiam gigantes nas paredes, e, por um momento, o pânico lhe invadiu a mente quando a imperfeição escura o havia lembrado do metalitus que os atacou na floresta meses atrás, era parecidíssimo.

O garoto andava lentamente e estava atencioso com cada canto e movimento que lhe era suspeito. Ele sentiu uma respiração em suas costas, e temeu ao virar, porém não se recusou. Era Luka na altura de sua nuca, tão apavorado quando o menino. Contudo ele realmente escutou o bater de um pano e um ar passou entre suas pernas, deixando as calças congeladas. Alguém correu para o outro lado tão rápido que nem ele pôde acompanhar.

– Mãe… – ele choramingou, espremendo-se em seu próprio metro quadrado como um bebê com frio e amedrontado.

– Ele vai ficar bem, não vai? – Sofia perguntou quando, aparentemente, havia se arrependido em tê-lo deixado ir sozinho. – É só uma casa. E eu estou apavorada.

– O único medo que devemos ter é de nos machucarmos ao esbarrar em alguma mesa. – falou Rosana, bem duvidosa.

Laura viu um vulto passar encostado atrás de Sofia, e as duas gritaram.

– VOCÊS VIRAM? – a menina apontava para a amiga.

– EU SENTI! LEVANTOU MEU VESTIDO!

– Vamos sair daqui, por favor! – sugeriu Ophelia. – Vocês querem nos assustar.

– Eu não estou brincando! – rosnou Sofia, quase chorando, e em seguida segurou a mão da gordinha. – Olhe, estou tremendo. E ainda devo estar tão branca quanto um cadáver.

As luzes voltaram a reluzir pelo Instituto Flintch. Felipe havia puxado a alavanca que fazia as engrenagens rodarem como loucas. Tudo sem algum tipo de aparelho ou princípio científico que usasse bateria, apesar de ser um equipamento bem bolado que não fazia a luz acabar por meio de atrito das pedras Kespentate que lá se encostavam. O menino olhou para trás e encarou o salão principal cheio de lençóis brancos erguidos sobre algum objeto, que realmente pareciam fantasmas. Quando viu que só tinha a companhia de Luka, correu depressa, gritando para o esperarem.

No segundo andar todos estavam bem, nada fora do comum havia acontecido, embora todos permanecessem alarmados e acovardados com a desconhecida corrente de ar, a qual teria levantado o vestido de Sofia. As meninas podiam jurar que era alguém.

Felipe chegou esbaforido. Luka, escondido embaixo de seu casaco, tentava respirar e suava frio. Eles continuaram andando pela mansão com os lampiões em mãos, mesmo com a luz dourada iluminando tudo muito bem. Thomas, intimidado como todos eles, tirou a luva do bolso e a vestiu, receoso de que fosse preciso em instantes.

Adentaram o primeiro quarto que encontraram, que não era enorme e cujo acúmulo de poeira era tão grande que estava quente, como se lá houvesse um aquecedor em funcionamento.

– Melhor ficarmos aqui. – disse Rosana, com um lampião na mão e a cortina na outra. Ela olhou o lado de fora da mansão. O jardim estava bem iluminado por conta da luz que saía pelas janelas abobadadas e compridas. – Amanhã mostro o resto da casa. Tenho até que lembrar onde cada cômodo fica.

– Vamos dormir aqui? – Frederico deixou as malas no chão e apontou para os colchões de tecido emiliano que lá estava esticado para eles.

– Só escolher um, deitar e dormir. – disse a mulher. – Nesse quarto caberá todos nós, e é melhor ficarmos juntos caso aconteça alguma coisa.

– O que poderia acontecer? – indagou Felipe, já sentado no colchão. Guido e Ophelia também o fizeram em outros.

– Ao mesmo tempo que conheço esse lugar, eu o desconheço, afinal, há muitos anos que não o vejo. Não sei o que pode ter por aqui.

– Obrigado, mãe. Estou mais calmo. – ironizou.

Eles abriram as malas e retiraram os cobertores, entre alguns espirros. Jogaram-se nos colchões como bonecos tacados por crianças mimadas e caíram no sono, mesmo com as luzes tremeluzindo. O medo de que alguém não convidado entrasse no quarto não era maior que o cansaço. Laura, Sofia e Felipe demoraram a dormir por esse motivo. Deitados, eles olhavam ao seu redor, com o temor fazendo seus corações baterem como caixas ocas ao serem esbofeteadas com raiva. Após poucos minutos seus olhos já se reviraram e eles também dormiram.

Pela manhã a história foi outra. A noite de sono pesado fez os garotos retomarem a energia perdida no dia anterior, tomada pelos belos momentos que somente verdadeiros aqualaestes podiam sentir. A ejámule seria um bom exemplo disso. Eles estavam em dia com o sono, e, mesmo dormindo em colchões velhos e empoeirados, a dívida foi quitada com sucesso.

Thomas esfregou os olhos quando acordou. Havia remela presa nos cantos. Ele sentou, de cabeça baixa, evitando a luz que penetrava na cortina. O dia parecia estar bonito lá fora, mas, em contraste, o garoto estava todo engraçado com o cabelo para cima, como se um vendaval tivesse passado.

Ele desceu as escadas com os olhos apertados e se deparou com todos os objetos à mostra, os mesmos que, na noite anterior, estavam cobertos por lençóis. No meio dos degraus ele parou. Avistou alguém sentado numa cadeira abaixo do mezanino no segundo andar dentro da mansão. Ali, no canto do salão, era Orivundo de braço enfaixado e Ophelia agachada conversando com o pai. Quando o grande homem viu que Thomas havia acordado e estava na escada o olhando com ansiedade, tratou de sorrir.

O garoto desceu os degraus depressa e correu entre as mesas, relógios de chão e estofados que estavam espalhados acima do tapete vermelho. Ele nem se importou se a poeira sujaria seus pés descalços, pois somente queria entender a razão do sorriso de Orivundo. O menino correu para a porta aberta mais próxima dos Gualli, de onde saía a forte luz do dia. Thomas, no segundo em que entrou naquele quarto, viu, do chão ao teto, uma janela de vidro imensa, cheia de arcos e nervuras com pinturas antigas. Estava aberta e dava para a grama do jardim, de onde entrava uma brisa gostosa. O menino olhou uma grande cama e todos os seus amigos ao redor, incluindo o velho Lutile sentado na beirada. Ele cuidava de Haydee, cujos olhos, já não tão inchados, encontraram os do sobrinho. O menino não esperou nem um instante para correr e pular na cama.

Não houve alguém incapaz de não se emocionar, e eles riram para disfarçar as lágrimas de alegria.

Thomas, com a cabeça no travesseiro ao lado da tia, tocava no rosto machucado na mulher.

– Você está tão lindo. Um homem tão crescido… – Haydee teve o rosto molhado de felicidade.

– Prazer, eu sou Thomas. – ele brincou, rindo de orelha à orelha e de mão aberta para que ela a apertasse.

– O prazer é todo meu. – sua tia riu.

– Isso não é lindo? – falou Sofia. Luka flutuou com um lenço na mãozinha, oferecendo-a.

O coração de Thomas irradiava força, alegria e amor, assim como o Sol iluminava a Terra. Os sentimentos estavam à flor da pele e aqueciam cada gesto e palavra como se fossem únicos, como uma tarde de verão, onde cada minuto de sol é singular, porém repetidos durante toda a estação.

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