Capítulo 8 – A volta de Haydee.

“O poder primordial, aquele carregado por gerações familiares, ainda é usado como delimitador em sistema de Castas em alguns povoados, apesar daqueles que o seguem, envergonharem-se de tal ato.” – Way Vutanni, antropólogo grekilano.

JÁ ERA NOITE e eles haviam passado por algumas vilas no decorrer do caminho para o topo da montanha. A estrada era toda iluminada por tochas, trabalho feito pela população local, constituída por homens e thonzes humildes vestidos com o que havia de mais simples nas lojas do mercado por ali.

O ambiente era mais agradável que o normal, mesmo com a serenidade e frescor da noite, e a temperatura amena da ejámule. Havia cachoeiras, consequência do derretimento repentino da neve na montanha.

Sob a iluminação laranja de Kìrbept, segunda lua de Aquala, eles tinham a carruagem ainda puxada por um par de peixes azuis tão parrudos quanto dois cavalos. Corsena, a égua de Thomas, voava no céu e adentrou o bosque, de onde não saiu mais, e logo depois eles foram parados por dois homens na estrada de tochas.

– Boa noite. – eles se apresentaram para o cocheiro, cuja aparência não levava a imaginar boa coisa. – Podemos checar?

– Sem sombras de dúvidas, meus rapazes.

Os dois policiais vestiam roupas de algodão e aço pesado que cobriam o corpo todo. Usavam dois cajados encurtados, um em cada lado do cinto, cuja pedra da ponta permanecia flutuando e ardendo em chamas na frente dos peixes para que fossem parados.

– Com licença. Boa noite, eu sou Ghermo e ele, Chewneno. – o primeiro policial se apresentou. – Antes que perguntem, não precisam se preocupar, só estamos verificando a segurança daqui.

– Devido aos atuais ataques em Longamínis, estamos cuidando de Émi’Lian, para que não nos chegue nada de ruim – intrometeu-se Chewneno, homem de cabeça raspada e barba negra grande.

– À vontade! – disse Ophelia.

– Podem colocar as cabeças para trás, por gentileza? – perguntou Ghermo. – Não queremos que se queimem.

Todos sentaram-se direito nas poltronas e a pedrinha do outro cajado flutuou janela adentro, e quando pairou no centro dos garotos, ardeu em chamas verdes. Então, os olhos do policial seguiram todos os cantos da carruagem.

– Não há nada. – cochichou Chewneno no ouvido de Ghermo.

– Sem querer ser rude, – disse Ophelia, com a cabeça na janela e olhar fixado no homem. – por quê haveria alguma coisa aqui? Vocês querem deter o mau, eu presumo. Mas como fariam isso se os Meonans não usam nenhum tipo de material para atacar, eles só usam a mente.

– Minha jovem, sinto lhe falar mas essa semana outros de Émi’Lian e Longamínis já encontraram armas poderosas como aquelas encontradas na Terra.

– Armas… com gatilho e tudo mais? – indagou a menina.

– E muito pior. Se usarem essas armas, Aquala poderá sofrer, e isso é grave. Por isso usamos o fogo verde, ele denuncia se há metal na carruagem.

– Então podemos continuar? – perguntou a menina, delicadamente.

– Por favor, e desculpem o incômodo.

O fogo vermelho diante dos peixes se apagou, e eles puderam retomar a viagem.

Rosana, principalmente, permaneceu bem alerta quando os policiais falaram sobre as armas. A mulher nunca imaginou que a situação estava tão agravada quanto daquela forma. Os garotos podiam ter em mente que o assunto era delicado, mas não como a sra. Guinard acreditava, não como os mais velhos sabiam. Somente quem já viveu em Aquala saberia o poder que as armas tem sobre toda a terra aqualaeste. Se Baltazar e Lutile ainda não sabiam daquela notícia, Rosana os contaria quando chegassem ao Instituto.

Eles passaram por outras vilas e rios que desembocavam em quedas d’água altíssimas. Aqueles dias estavam diferentes dos normais, os aqualaestes em Longamínis eram vigiados vinte e nove horas por dia pelos Protetores, e quando a carruagem atingiu o topo da montanha, eles olharam o céu estrelado. Ninguém recusou a se hipnotizar pelas ondas marinhas que eram desenhadas pelas estrelas e as duas luas, uma de cada lado. Não havia nenhuma lula colossal ou baleia com Protetores os vigiando. Ali eles que estavam de olho em tudo.

Quando puderam voltar à realidade, avistaram o Bosque Abençoado mais a frente. Era um emaranhado de árvores grandes, cipós e mais árvores nascendo de outros troncos, como se fossem galhos. Havia um caminho para dentro do bosque que deveria ser totalmente escuro, mas a luz azul do céu criava feixes que atravessavam as folhas e chegavam a tocar o chão de terra, iluminando-o divinamente.

Os garotos suspiravam com o que viam, era tanta beleza numa grama que parecia soltar luz por ela mesma com tamanho brilho que refletia. Eles avistavam as casas nas árvores e as pontes de madeira onde ainda passavam algumas crianças, homens e mulheres. Dava para ver que a segurança lá era impecável, pois thonzes brincando nos galhos e guardas humanos que dançavam nas fogueiras interagiam como se as espécies fossem uma só. Quanto mais adentraram, mais beleza viam. Eles, com as cabecinhas fascinadas para fora das janelas e do teto, assistiam às águas brilhantes que circulavam entre os pés das árvores. A correnteza, pelos troncos, as faziam subir como se tivessem vida própria, passando pelas casas e subindo ainda mais para alcançar mais outras, até que as gotas fossem jorradas no topo dos galhos tão lentamente que parecia não haver gravidade.

A carruagem, puxada pelos peixes, começou a andar lentamente com o embasbacar daquele lugar. Thomas e Laura, levantados e acima do estofado, sentiam as gotas tão brilhantes que pareciam pequenas estrelas os tocando. Eles abriram os braços e fecharam os olhos, já que aquela sensação de pureza eles poderiam procurar em todos os lugares, mas só encontrariam lá.

Quando abriram os olhos, conseguiram ver uma luz celestial de cima e sentir os pingos tocarem seus narizes. As casas de madeira nas árvores chegavam a estar altíssimas, e não tinham portas nem janelas, apenas aberturas para os thonzes passarem e olharem para fora.

Um pouco adiante, ainda havia mais subida. Ao contrário do que eles pensaram, a montanha ainda não tinha terminado, e depois de uma colina, puderam enxergar mais árvores e, no meio, uma casa. Apenas uma casa. E, quanto mais eles se aproximavam, mais perceberam o tamanho daquela mansão. Parecia um castelo. Algo bom. Continha uma beleza e paisagem marcantes, não só pelo bosque que a cercava, mas também pelo conhecimento de sua origem. Era como se o Instituto Flintch fosse feito para espalhar bondade e acabasse por ficar com parte dela fixada em suas paredes e muros.

– Por quê fica tão longe? – perguntou Felipe, quando a carruagem já havia parado e Thomas, descido. Estava hipnotizado com a beleza diante dele. – Não deveria ser um lugar para ajudar e cuidar de pessoas que precisavam?

– Não percebeu? – falou Sofia, pronta para descer também. – Os pais de Thomas construíram aqui porque é mais perto de Phoerios.

– Assim, nosso deus poderia olhar todos os doentes e ajudar a cuidar deles. – respondeu Guido, com os pés descalços na terra fria e cintilante.

– Como as pessoas chegavam aqui? – perguntou Felipe novamente, agora em pé junto a todos e andando pela grama macia.

– Filho, – a sra. Guinard pôs as mãos nos ombros do menino. – os Flintch resolveram esse problema construindo uma espécie de elevador.

– Elevador? Como, mãe?

Rosana foi até o jardim do Insituto, que não dava para ser distinguido, e mostrou uma cerca circulando um buraco no chão.

– Mesmo para aqualaestes tão poderosos quanto eles, quebrar uma montanha havia demorado mais de dois anos.

Os garotos se aproximaram de onde a mulher estava. Ela apontava para um furo redondo e escuro no chão. Não dava para ver o que havia lá embaixo.

– Existia uma corda feita de cipós de amanduyecteira que trazia as pessoas para cá. Era o modo mais rápido de se chegar. Teríamos vindo por aqui se ainda houvesse essa corda.

Rosana podia observar o Instituto Flintch que, em cada cantinho, encontraria uma lembrança diferente. Ela fechou os olhos e viu Sandra e Robert de mãos dadas a chamando para entrar pela porta. Aquela mansão estava completamente diferente do que antes era, assim como a relação com os pais de Thomas na época. A sra. Guinard ficou emocionada quando se aproximou mais ainda das pilastras na frente do portão da casa.

Os meninos observavam a reação da mãe de Felipe. Uma tristeza, por um instante, tocou Rosana. Ela sentia-se sozinha a todo momento, mesmo estando com seu filho e entre amigos. O coração da mulher bateu como antigamente, quando ela podia escutar a voz de Sandra a chamar para a colheita do almoço ou para passear, também, na companhia dos padrinhos de Thomas. Eles eram melhores amigos desde aquela época, quando somente planejavam criar famílias. Naquele tempo, elas já imaginavam que seus filhos seriam inseparáveis como eles. E acertaram.

A cada passo da sra. Guinard, uma lembrança diferente lhe vinha à cabeça. Ela lembrava de quando Maldo e Haydee ainda eram casados. Eles viviam dançando pelo jardim com Baltazar, que ainda era um tigre jovem.

Um pedaço de Rosana estava lá, escondido nas profundezas de um passado tão feliz e inesquecível. Ela subiu os degraus e, sem medo, encostou na porta do Instituto, que se abriu ao menor toque de seus dedos. Por um momento, ela havia voltado no tempo, onde as pessoas que mais amava viveram felizes o máximo que conseguiram. Eles não estavam mais lá. O tapete vermelho estava escuro e não tinha mais Sandra passando por cima dele para mostrar os vestidos que ganhava de presente de Robert.

Todos os garotos seguiam Rosana Guinard em silêncio, principalmente Thomas, que permanecia quase que colado na mulher.

– Foi aqui… – a mãe de Felipe tampou o rosto com as mãos. Chorando, parou diante da escuridão dentro da mansão sobre um tapete vinho e sujo. Thomas a abraçou forte. – Os melhores momentos da minha vida eu passei ao lado de Sandra, e não tive nem a oportunidade de agradecer.

Rosana secou os olhos e procurou uma alavanca na parede perto dali. Quando puxou-a com força, o atrito na pedra criou uma pequena faísca que tocou num fio branco bem parecido com um cipó. O brilho do clarão nos pés da mulher iluminou aquele fio, que estava preso em todos os cantos do Instituto Flintch.

Primeiramente, a luz incandescente da linha tornou possível os garotos verem o salão de entrada. Era imenso. O chão era de pedras finas como o mármore e o marfim. O tapete vermelho se extendia até uma escadaria no final, onde se dividia em duas, uma para a direita e outra para a esquerda.

O fio iluminava em dourado os cômodos e os tetos altíssimos com lustres quebrados, mas ainda assim eram magníficos, feitos de zarédias, pedras mais preciosas que ouro. Grandioso, exuberante, espetacular, luxuoso, soberbo, opíparo e, acima de tudo, antigo lar de pessoas carentes que podiam se inebriar com tamanha magia que acomodava cada pedacinho de seus corações. Aqueles que um dia acreditaram na família Flintch estavam marcados na história de um sonho que se tornou realidade.

Mesmo com a estrutura arquitetônica da superfície interior estando quebrada e rachada pela ação do tempo, nada poderia tirar a satisfação que Rosana teve ao rever a mansão. Foi triste lembrar de tantos momentos com Sandra e ter a certeza de que nada voltaria.

– Vamos conhecer os quartos? – a mulher virou-se para os garotos novamente, porém forçando um belo sorriso. O redor de seus olhos estava úmido, dava para reparar o que ela realmente sentiu quando entrou no Instituto. Thomas não demonstrou, mas estava muito feliz por dentro, pois, com aquelas lágrimas, ele havia entendido o significado que seus pais tinham para a sra. Guinard. Por um lado, as recordações eram boas, mas o fato de serem apenas lembranças o entristecia.

– Você se lembra de tudo? Onde fica os quartos? – perguntou Thomas, enquanto ainda delirava-se com o tamanho do lugar.

– Temos vinte e cinco opções, pelo que eu me lembre. – Rosana arrumava as malas, enfileirando-as com a ajuda de Guido, Felipe e Nadjo. – Obrigada, meninos.

– Sinto que vou me perder. – brincou Laura, e segurou a mão de Thomas. – Vamos andar.

– Esperem. Eu os guiarei, ainda lembro de alguma coisa. Aos poucos eu devo lembrar de cada cômodo, afinal, são tantos anos…

Quando Luka adentrou o Instituto Flintch feito um potuco louco, Rosana começou o trajeto com os garotos a seguindo. Havia segredos como vários objetos tão grandes quanto eles cobertos por lençóis brancos. Estavam espalhados por todo o lugar, como se fosse um mausoléu. Eram peças de uma vida guardadas e prontas para mudança, porém paradas no tempo.

Eles andavam e tocavam nos panos empoeirados. Thomas, que volta e meia tinha rinite, ficou com o nariz vermelho e congestionado. A luz da linha dourada que iluminava o interior da mansão possuía um brilho reluzente que tremeluzia, mas não apagava. Subiram a escadaria e seguiram Rosana, que ia para o segundo andar à esquerda, cada um segurando suas malas quando Frederico já não tinha mãos para tantas bagagens.

– Esse lugar está precisando de uma faxina urgente. – comentou a sra. Guinard, quando ouviu um espirro de Thomas.

– É gigante, não vamos dar conta. – ele disse.

– Seus pais cuidaram de muitos doentes e ainda deixavam tudo isso bem limpo. O chão e até o teto brilhavam. Podemos conservar essa casa, mas com o tempo.

– Obviamente seria impossível acordarmos amanhã e limparmos tudo no mesmo dia. – eles andavam, acompanhados de todos os outros.

– Com certeza. E, além do mais, amanhã pela manhã Arbinelo Treki deve chegar, e logo o treinamento vai começar.

O garoto havia se esquecido daquele compromisso, e quando Rosana o lembrou, um peso caiu sobre suas costas. Ele se sentiu acomodado, afinal tinha o romance com Laura, a beleza do lugar e seus amigos ainda o acompanhando. Ele queria tanto ir atrás dos duyoktu que, ao lembrar que teria trabalho árduo no dia seguinte, ficou com uma baita preguiça.

– Estou um pouco assustado com essa história de um senhor vir de tão longe para me ajudar, me ensinar e me direcionar a um caminho tão perigoso. – o menino desabafou. – Parece que ele vem para me levar à morte.

– Não diga uma coisa dessas! – intrometeu-se Felipe. – Arbinelo vem exatamente para que você não sofra.

– Mas já estou sofrendo com o mistério do futuro. Não sei o que ele me aguarda.

– O poder que esse mistério tem sobre nós é um sofrimento bom se você acredita que o futuro será bom. Se for pessimista, aí sim você terá um sentimento ruim. – explicou Rosana. – Pense em coisas boas para que elas aconteçam a você.

Eles chegaram a um corredor imenso e escuro. Havia um quarto logo perto deles, que era pequeno como um armário de vassouras e tinha lampiões para serem acesos. A sra. Guinard pediu para que seu filho os pegasse, e então ela esfregou a ponta dos dedos indicadores na palma da outra mão. O pequeno atrito fez sair uma chama que acendeu todas aquelas armações de cerâmica e vidro num só toque. Naquele mesmo instante, a corda de luz dourada apagou e eles só permaneceram com a iluminação dos lampiões.

Houve gritos instantâneos, principalmente de Laura e Sofia. Thomas, por pouco, não ficou surdo, assim como Felipe, só que esse já estava agarrado à cintura da mãe.

– Dwinler da luz, nos acuda! – berrou Ophelia, somente com o rosto laranja visível graças à chama. – O quê aconteceu?

– Nadjo, Laura, Guido, estão todos bem? – perguntou Rosana, tentando ficar calma. – Deve ser o mecanismo do primeiro andar. Deve ter saído do lugar e parado de rodar.

– Também estou aqui! – falou o cocheiro.

– Venha Fred! – Ophelia o chamou, segurando o braço do homem. Na hora do medo todos eram mais íntimos.

Guido, com um dos lampiões na mão, agachou naquele armário de vassouras para pegar mais um e entregar a Nadjo. Foi nesse instante que ele, ao tocar na corda presa na cerâmica, reparou que o armário se estendia, e que eles estavam num quarto. As paredes perto deles eram nada mais, nada menos, que grandes mesas empilhadas e disfarçadas. O menino ainda viu, em questão de segundos, a outra parte do cômodo, que mais parecia ser escondida, tinha desenhos e textos em papéis pregados em todos os cantos. Ali não havia mais espaço para um quadro sequer.

O que seriam aquelas coisas escritas? Seriam alguns Certeiros antigos da família? Esperto, o menino, ainda agachado, logo reparou que as folhas de papel não tinham sofrido com a ação do tempo e estavam novas, com a exceção dos desenhos de monstros bizarros e enigmáticos, além de discos voadores cheios de engrenagens. Guido conseguiu ver tudo perfeitamente em menos de dez segundos, e ele ficou bem confuso, porém não achou necessário contar nada a alguém.

Um vento passou por trás deles.

– O que foi isso? – perguntou Laura, ao olhar para Thomas com o fogo do lampião aquecendo o rosto.

– Deve ser uma corrente de ar. – disse Nadjo, não acreditando nele mesmo.

Todos eles logo se entreolharam.

– Não acho que seja uma corrente de ar. – falou Ophelia, mais próxima deles e agarrada aos meninos.

– O que acha que pode ser? Um fantasma? – ironizou Felipe, grosseiro como na maioria das vezes.

– Esse é realmente o seu filho, sra. Guinard? – a gordinha falou para Rosana, apontando o dedo ao garoto. – Não me parecem iguais psicologicamente.

– Psicologicamente? Ah, por favor, se for falar de mim fale direito. – dizia ele. – Não sabe nem fazer alguém se sentir mal.

– Não era essa a minha intenção. – Ophelia esticava o pescoço para frente ao falar com tom de superioridade.

– Já que não era sua intenção, devia ter ficado calada.

– Fiquem quietos! – mandou Guido. – Vocês estão sentindo?

– Acho que estou, – confirmou Thomas. E então falou baixinho. – são passos, não são?

– Sim, são. – o garoto sussurrou. – Alguém precisa ir lá embaixo e puxar a alavanca novamente. Alguém se habilita?

– Eu vou com Luka e Sofia – Felipe voluntariou-se.

– Então vai lá, valentão! – cochichou Ophelia.

– Vá sozinho! Não vou descer nessa escuridão. – Sofia impôs-se.

– Tanto medo pra quê? Já viram que tudo aqui perto é bem seguro. – o garoto disse, virando-se contra as luzes dos lampiões. – Já volto, mesmo achando que devíamos ir todos juntos, o que seria justo.

Felipe queria mais é se mostrar, mesmo o medo lhe assombrando até os dedões dos pés. Ele desceu as escadas com as sombras se formando em sua frente a cada passo, como se elas aparecessem somente para causar terror. As silhuetas dos lençóis surgiam gigantes nas paredes, e, por um momento, o pânico lhe invadiu a mente quando a imperfeição escura o havia lembrado do metalitus que os atacou na floresta meses atrás, era parecidíssimo.

O garoto andava lentamente e estava atencioso com cada canto e movimento que lhe era suspeito. Ele sentiu uma respiração em suas costas, e temeu ao virar, porém não se recusou. Era Luka na altura de sua nuca, tão apavorado quando o menino. Contudo ele realmente escutou o bater de um pano e um ar passou entre suas pernas, deixando as calças congeladas. Alguém correu para o outro lado tão rápido que nem ele pôde acompanhar.

– Mãe… – ele choramingou, espremendo-se em seu próprio metro quadrado como um bebê com frio e amedrontado.

– Ele vai ficar bem, não vai? – Sofia perguntou quando, aparentemente, havia se arrependido em tê-lo deixado ir sozinho. – É só uma casa. E eu estou apavorada.

– O único medo que devemos ter é de nos machucarmos ao esbarrar em alguma mesa. – falou Rosana, bem duvidosa.

Laura viu um vulto passar encostado atrás de Sofia, e as duas gritaram.

– VOCÊS VIRAM? – a menina apontava para a amiga.

– EU SENTI! LEVANTOU MEU VESTIDO!

– Vamos sair daqui, por favor! – sugeriu Ophelia. – Vocês querem nos assustar.

– Eu não estou brincando! – rosnou Sofia, quase chorando, e em seguida segurou a mão da gordinha. – Olhe, estou tremendo. E ainda devo estar tão branca quanto um cadáver.

As luzes voltaram a reluzir pelo Instituto Flintch. Felipe havia puxado a alavanca que fazia as engrenagens rodarem como loucas. Tudo sem algum tipo de aparelho ou princípio científico que usasse bateria, apesar de ser um equipamento bem bolado que não fazia a luz acabar por meio de atrito das pedras Kespentate que lá se encostavam. O menino olhou para trás e encarou o salão principal cheio de lençóis brancos erguidos sobre algum objeto, que realmente pareciam fantasmas. Quando viu que só tinha a companhia de Luka, correu depressa, gritando para o esperarem.

No segundo andar todos estavam bem, nada fora do comum havia acontecido, embora todos permanecessem alarmados e acovardados com a desconhecida corrente de ar, a qual teria levantado o vestido de Sofia. As meninas podiam jurar que era alguém.

Felipe chegou esbaforido. Luka, escondido embaixo de seu casaco, tentava respirar e suava frio. Eles continuaram andando pela mansão com os lampiões em mãos, mesmo com a luz dourada iluminando tudo muito bem. Thomas, intimidado como todos eles, tirou a luva do bolso e a vestiu, receoso de que fosse preciso em instantes.

Adentaram o primeiro quarto que encontraram, que não era enorme e cujo acúmulo de poeira era tão grande que estava quente, como se lá houvesse um aquecedor em funcionamento.

– Melhor ficarmos aqui. – disse Rosana, com um lampião na mão e a cortina na outra. Ela olhou o lado de fora da mansão. O jardim estava bem iluminado por conta da luz que saía pelas janelas abobadadas e compridas. – Amanhã mostro o resto da casa. Tenho até que lembrar onde cada cômodo fica.

– Vamos dormir aqui? – Frederico deixou as malas no chão e apontou para os colchões de tecido emiliano que lá estava esticado para eles.

– Só escolher um, deitar e dormir. – disse a mulher. – Nesse quarto caberá todos nós, e é melhor ficarmos juntos caso aconteça alguma coisa.

– O que poderia acontecer? – indagou Felipe, já sentado no colchão. Guido e Ophelia também o fizeram em outros.

– Ao mesmo tempo que conheço esse lugar, eu o desconheço, afinal, há muitos anos que não o vejo. Não sei o que pode ter por aqui.

– Obrigado, mãe. Estou mais calmo. – ironizou.

Eles abriram as malas e retiraram os cobertores, entre alguns espirros. Jogaram-se nos colchões como bonecos tacados por crianças mimadas e caíram no sono, mesmo com as luzes tremeluzindo. O medo de que alguém não convidado entrasse no quarto não era maior que o cansaço. Laura, Sofia e Felipe demoraram a dormir por esse motivo. Deitados, eles olhavam ao seu redor, com o temor fazendo seus corações baterem como caixas ocas ao serem esbofeteadas com raiva. Após poucos minutos seus olhos já se reviraram e eles também dormiram.

Pela manhã a história foi outra. A noite de sono pesado fez os garotos retomarem a energia perdida no dia anterior, tomada pelos belos momentos que somente verdadeiros aqualaestes podiam sentir. A ejámule seria um bom exemplo disso. Eles estavam em dia com o sono, e, mesmo dormindo em colchões velhos e empoeirados, a dívida foi quitada com sucesso.

Thomas esfregou os olhos quando acordou. Havia remela presa nos cantos. Ele sentou, de cabeça baixa, evitando a luz que penetrava na cortina. O dia parecia estar bonito lá fora, mas, em contraste, o garoto estava todo engraçado com o cabelo para cima, como se um vendaval tivesse passado.

Ele desceu as escadas com os olhos apertados e se deparou com todos os objetos à mostra, os mesmos que, na noite anterior, estavam cobertos por lençóis. No meio dos degraus ele parou. Avistou alguém sentado numa cadeira abaixo do mezanino no segundo andar dentro da mansão. Ali, no canto do salão, era Orivundo de braço enfaixado e Ophelia agachada conversando com o pai. Quando o grande homem viu que Thomas havia acordado e estava na escada o olhando com ansiedade, tratou de sorrir.

O garoto desceu os degraus depressa e correu entre as mesas, relógios de chão e estofados que estavam espalhados acima do tapete vermelho. Ele nem se importou se a poeira sujaria seus pés descalços, pois somente queria entender a razão do sorriso de Orivundo. O menino correu para a porta aberta mais próxima dos Gualli, de onde saía a forte luz do dia. Thomas, no segundo em que entrou naquele quarto, viu, do chão ao teto, uma janela de vidro imensa, cheia de arcos e nervuras com pinturas antigas. Estava aberta e dava para a grama do jardim, de onde entrava uma brisa gostosa. O menino olhou uma grande cama e todos os seus amigos ao redor, incluindo o velho Lutile sentado na beirada. Ele cuidava de Haydee, cujos olhos, já não tão inchados, encontraram os do sobrinho. O menino não esperou nem um instante para correr e pular na cama.

Não houve alguém incapaz de não se emocionar, e eles riram para disfarçar as lágrimas de alegria.

Thomas, com a cabeça no travesseiro ao lado da tia, tocava no rosto machucado na mulher.

– Você está tão lindo. Um homem tão crescido… – Haydee teve o rosto molhado de felicidade.

– Prazer, eu sou Thomas. – ele brincou, rindo de orelha à orelha e de mão aberta para que ela a apertasse.

– O prazer é todo meu. – sua tia riu.

– Isso não é lindo? – falou Sofia. Luka flutuou com um lenço na mãozinha, oferecendo-a.

O coração de Thomas irradiava força, alegria e amor, assim como o Sol iluminava a Terra. Os sentimentos estavam à flor da pele e aqueciam cada gesto e palavra como se fossem únicos, como uma tarde de verão, onde cada minuto de sol é singular, porém repetidos durante toda a estação.

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Capítulo 7 – Os peixes da terra.

“Quando a erupção aquática tiver início, prepare-se, Yalay. Salte como um rapko com regozijo, pois a exaltação guardada pelos cordados em uma estação inteira, explodirá na ejámule. Um campo minado a terra se tornará, assim como nossa vida nessa sociedade medíocre, intolerável ao nosso amor interracial.” – Um berço em outro lado. ALLANO, Wakenah. 1º volume. Cap16 pg 77.

TODOS JÁ HAVIAM ACORDADO no hotel Yerlek, pelo menos aqueles que acompanhavam o descendente de Phoerios. O frio estava intenso na varanda do primeiro andar, e lá, numa cadeira esculpida do tronco de uma amanduyecteira, estava sentada Crintyk.

A cervuni olhava o céu frio e claro, como quem estava fisicamente naquele mundo, mas a mente viajava em suas próprias histórias passadas. Ela não parava de pensar em Thomas, ficava imaginando se ele conseguiria salvar seu pai. Seus pensamentos que lutavam contra o cansaço de um dia cheio de brigas no bar, a faziam lembrar de quando era criança. Seu tutor havia morrido com uma lança na cabeça. Contudo, o melhor pai que ela teve na vida foi o diretor de um orfanato cervuni.

O tutor humano, apaixonado pela filha de outra raça, não sobreviveu a um dos ataques meonan em Émi’Lian. Ela nunca mais esqueceu o rosto em prantos do homem o qual mais amou na vida. No dia de sua morte, ambos rastejavam na terra morna e úmida da Guerra dos Eloupes, cuja batalha foi de cunho inteiramente capitalista. Cinco províncias lutavam bravamente ao lado da honra para conquistar terras naquela época. Contudo, a guerra serviu de brecha para um dos aliados de Meon. Houve um espião que atuou como ministro dos Eloupes, aqueles que tratavam das trocas de pedras preciosas entre os governos. Aliado de Tertius, mandou atacar. A guerra acabou com centenas de mortos por corsarius, inclusive o pai de Crintyk. Ela, na frente do senhor, sentiu-se culpada em tê-lo chamado para abraçá-la naquele momento. A lança, que era para ter acertado o chão de terra na chuva, atingiu seu tutor, e aquela foi última vez que ela o viu. Os olhos vidrados de seu pai, no instante de sua morte, deixaram a luz da vida e, somente com os movimentos dos lábios, a chamou de filha e disse que a amava.

Crintyk se arrependeu de ter fugido de casa naquela noite. Ela, durante todos esses anos, imaginava se, caso tivesse ficado na cama enquanto as bombas explodiam no lado de fora da casa, seu pai teria voltado. Ela guardava todos esses pensamentos para si. Não queria que ninguém soubesse de nada, principalmente um garoto como Thomas. Ela não queria contar ao menino que a história dele havia lembrado a dela, principalmente porque eram situações bem diferentes, mas que podiam ter o mesmo fim. Contudo, Crintyk não queria fazer Thomas se importar, ou fingir se importar, com a história de uma cervuni dona de bar. Apesar de esconder nas ardentes artérias do coração de uma filha entristecida, com o passado que até então condenava, ela queria mostrar para o garoto a verdade: a vontade e a bondade que ela o desejava em sua conquista, pois com pouco contato ela já tinha encontrado em Thomas as forças que ele tinha dentro dele. A cervuni sabia que ele precisava para salvar sua família, e ela o daria todo o apoio possível.

Felipe e Frederico saíram da porta e se depararam com um dia inspirador pela manhã. O garoto segurava as malas e tinha Luka voando acima de sua cabeça, seguido da potuca Meydrana de Crintyk.

– Ela não quer nem mais saber de mim. – brincou a cervuni, ao se levantar da cadeira e ir em direção ao garoto para ajudá-lo com as malas.

– Não precisa. – ele falou, sorrindo. Em seguida, fitou os potucos. – Eu acho que o Luka gostou dela.

– Bem, eu tenho certeza de que ela o adorou. – disse Crintyk, ao pegar a potuca no ar e a colocar sobre o seu ombro. – Fique aqui mocinha.

Laura também saiu da porta bocejando e com muita cara de sono, afinal foram menos de quatro horas na cama e nem tempo de sonhar direito foi possível.

Uma outra cervuni trazia, pelas rédeas, os peixes que carregavam a carruagem. Ela os deixou bem na frente da varanda e subiu os cinco degraus para falar com Crintyk.

– A senhora deve dormir agora. – ela falou, esfregando as mãos para se aquecer. – Eu e as meninas cuidaremos de tudo.

– Já vou, Perveryte. Vou me despedir dos garotos e entrar.

– Sim, senhora. – ela disse, e virou-se para Felipe, Laura, Sofia e Thomas. Guido, Ophelia, Nadjo e Rosana já estavam descendo. – Boa viagem para vocês.

Os meninos agradeceram e, com a ajuda de Crintyk e Frederico, colocacam todas as malas na carruagem. Já estava na hora de partir. Todos, em poucos minutos, já estavam embarcando. O cocheiro, na suspensão, mandava beijinhos para a cervuni, que estava muito mais preocupada em dar as últimas palavras com Thomas do que retribuir os amores vindos daquele bêbado.

– Menino, preste atenção, – ela disse, apoiada na janela da carruagem. – você vai conseguir tudo o que deseja. Eu acredito que vai. Ter um pai como o seu que, com a ajuda da mulher que amava, construiu um lugar para salvar vidas, é a maior benção que uma criança pode ter.

O garoto acanhou-se e sorriu, tão emocionado que poderia derramar uma lágrima. Ele sabia que falava sobre o Instituto Flintch.

– Obrigado – ele disse.

– Agora vá e salve a vida do seu pai. Honre-o retribuindo o cuidado que ele teve com tantas outras vidas e, acima de tudo, honre o sangue de Phoerios.

– Obrigado… de verdade! – o menino enfiou os braços pela janela e abraçou o pescoço acasacado da cervuni. – Agora, antes de ir, quero contar um pequeno segredo.

Crintyk ficou com as orelhas pontudas atentas e as antenas, que até então estavam caídas, ficaram em pé. O garoto falou baixinho:

– É só você elogiar meus pais que você terá todo o meu carinho em suas mãos.

– E por quê isso é um segredo?

– Porque se não fosse, meus amigos se aproveitariam disso. – falou Thomas, e sorriu. A cervuni cor de aspargo também o fez, mostrando um sorriso de fibras de vassoura ao invés dentes.

– Boa viagem. – ela se distanciou e deu adeus com os três dedos bem esticados.

A carruagem andou, e em pouco tempo já estava na estrada para o Instituto Flintch. Os garotos ficaram bem calados enquanto andavam sobre rodas grandes. Ninguém gostava de conversar de manhã, era muito de um ser humano ter que abrir a boca com um bafo bem intimidador e arrumar qualquer assunto para socializar. Eles poderiam fazer isso depois. Enquanto Ophelia, Nadjo e Guido olhavam para a paisagem ao lado de fora, Thomas escondia seu bafo para que Laura não percebesse, e ela tampava a boca ao olhar para ele. Já Felipe se importava com o que Sofia achava dele, mas o sono era mais importante, e ele dormiu de boca aberta. A sorte do garoto foi que Sofia também havia caído no sono.

Pouco tempo se passou e a carruagem tremeu. Alguma coisa acontecia. Thomas olhou a janela e viu os troncos passando rápido pelos seus olhos. Os corais também estavam quietos nas raízes das árvores, aparentemente nada anormal. O garoto olhou as rodas da carruagem. Elas tocavam na neve e ficavam suspensas no ar com tamanha velocidade, mas aquilo parecia ser normal.

– O que houve, Thom? – Laura o puxou para dentro, assustada com a preocupação do menino.

– Não houve nada. – ele disse, com a testa franzida.

– E que tremor foi esse?

– Também não sei. Deve ser impressão nossa.

Segundos depois, a carruagem sacudiu por pouco tempo, e o cocheiro gritou do lado de fora:

– É agora!

– Está berrando por quê, Frederico? – gritou Ophelia pela janela.

– A ejámule vai começar agora!

Thomas, na janela, sentiu uma brisa diferente no rosto. A nova estação começava pontualmente naquela hora. Ele avistou Corsena voando perto da carruagem, mas também viu alguns jatos de água saindo da terra entre as árvores, como se o solo estivesse em erupção. O céu estava inteiramente azul, o que era difícil em Aquala, já que sempre tinha nuvens brancas entre os lençóis marinhos muito longe do chão. Porém, naquela hora, nem lençóis marinhos o céu tinha. A luz do dia ficou morna e trouxe calor para o rosto do garoto.

– Tem uma alavanca em cima de você, Thomas. – falou Ophelia, apontando para o teto sobre ele. – Puxe-a!

O menino o fez e o teto abriu, então todos eles puderam ficar em pé com os braços apoiados para fora. Felipe e Sofia também haviam acordado com os tremores. Quando todos se deram conta de que o frio estava passando, jogaram os casacos para longe e não sabiam para qual lado olhar.

Os jatos de água morna saíam da terra e molhavam a neve, que parecia derreter aos poucos. Alguns peixes também apareceram debaixo, e rodeavam os garotos. Eram coloridos e bem pequenos, mas conseguiam acompanhar a carruagem.

Thomas, com a brisa gostosa no rosto, olhou os paleones saírem dos buracos nas árvores e voarem para perto dos jatos de água, onde, logo depois, voavam como gaivotas.

– Olhem! – falou Laura, quando apontou para várias sereias que saíram pelos jatos e nadaram na neve que derretia.

Ophelia viu um bando de fadas voando e se banhando nas menores gotas que saíam da terra. Os maiores peixes azuis da província também estavam lá, e mais deles jogavam neve para todos os lados quando saíam da superfície de Aquala.

Alguns zarmos laranjas fizeram sombra nos garotos quando voavam acima deles. Tudo estava fresco e o calor vinha na medida certa. Eles tinham sereias penduradas nas janelas e mandando beijos até para Frederico, que estava bem carente.

– Olhem lá! Olhem! – gritava Nadjo, sorrindo e apontando para alguns animais que pulavam da água no piso, pois, naquela hora, a terra de Longamínis estava alagada, mas não era um alagamento qualquer. A superfície era cristalina e transparente, de uma forma que eles podiam assistir os peixes nadarem serpenteando na água.

Corsena voava, mergulhava e emergia, sempre ao lado da carruagem que boiava mas era puxada pelos peixes. Thomas sentou no estofado e viu a sereia Pisínole segurando-se no vidro da janela. Ela falava alguma coisa para Laura.

– Não é a coisa mais linda que já viram? – berrava Nadjo, em pé. O garoto, filho de religiosos, nem acreditaria na notícia que a sereia trazia.

Quando Thomas aproximou-se de Laura para saber o ocorrido, a menina falou:

– Você nem acredita no que Pisínole veio nos contar.

– Arrumou uma informante? – brincou o garoto, eufórico pela beleza que os cercava fora da carruagem.

– Mais ou menos isso. Eu confio nela. – a menina falou, um tanto séria. – Thom, os Gukpuk estão convidando thonzes para comparecerem ao Castella Hondeias. Isso não é estranho?

– Bastante. – falou ele. E a puxou para continuar a ver o espetáculo que a ejámule apresentava.

– Muito obrigada, Pisínole. Por favor, me mantenha informada.

A sereia pulou para a água transparente que alagava os bosques, junta ao cardume de outras que se deleitavam com cada pulo nos lençóis aquecidos. O jatos eram ainda mais intensos que antes, e os peixes que saíam deles eram ainda maiores.

Felipe apontou para as focas que nadavam ao lado deles. Na verdade não eram focas, mas pareciam muito. Com três vezes o tamanho de uma comum e corcovas triangulares nas costas, elas eram do tamanho da carruagem. Nadavam de barriga para cima e jorravam água em Sofia. Felipe a fitou, com medo da reação da menina. Ela olhou para o próprio vestido de algodão enxarcado, e tocou o cabelo molhado. Com o calor do momento e o vento no rosto, Sofia riu e não se importou.

Luka saiu de trás da cabeça de Felipe e voou com os zarmos há poucos metros acima deles. Todos riam do que estava acontecendo, até Guido, que estava chateado em deixar sua avó, se divertia ao participar da animação na carruagem. A sra. Guinard era a única que permanecia sentada e lendo “Agitos de Amor”, romance de seu autor preferido, Golfine Gallardi. A mulher sentia nostalgia ao lembrar da sua primeira ida a Aquala ao lembrar da primeira vez em que conheceu a ejámule. Aquele livro ela tinha desde a adolescência. Agora, o que ela não percebeu, era o fato de seu filho ter subido o teto e sentado com as pernas para o lado de fora.

– Volte já para dentro, a graça acabou! – gritava Sofia, de cabelo enrolado e para frente do ombro.

O nível de felicidade e loucura em Felipe havia chegado ao máximo, e ele pulou nas focas, onde permaneceu montado.

– Ele está maluco! – Laura riu, assim como Thomas e os outros. Guido e Nadjo fizeram o mesmo. Com uma perna de cada lado, eles tinham a superfície da água batendo nos joelhos, e seguravam numa das corcovas triangulares.

A foca de Felipe virou de barriga para cima, e o garoto ficou imerso, de cabeça para baixo. Ele viu bem os corais e anêmonas que antes eram parte da floresta. Naquela hora, eles eram parte do maior lago o qual já viram, aquele que cobria o bosque todo e que tinha menos de 4 metros de profundidade.

– Dane-se – falou Sofia para si, e pulou na barriga azulada da foca. Quando o animal virou novamente, Felipe segurou seu braço. Ajudou a garota a subir e a montar atrás dele.

Thomas e Laura riram como se todos os problemas deles tivessem acabado, e com aquela sensação de liberdade e o sopro fresco no rosto do casal, eles se abraçaram. O garoto segurou-a por trás e encostou seu rosto no dela. O queixo encaixou perfeitamente no ombro da menina e ele falou em seu ouvido:

– Só está tudo tão lindo porque você está na minha frente.

Ela olhou bem perto nos olhos dele e o beijou com vontade na boca.

– Olha o romance! – gritou Sofia, atrás de Felipe. A foca onde os garotos montavam permanecia ao lado dos peixes que puxavam a carruagem. Nadjo, Ophelia e Guido, também em cima de outros animais marinhos grandes e que tinham caudas que serpenteavam na água, acompanhavam a beleza de Aquala com gritos de alegria e vários cardumes que os envolviam na superfície. A euforia na carruagem e ao seu redor não parou por muito tempo. Passaram por um recife de corais que chegava a emergir da água, e a carruagem seguia, não encontrava vontade para parar. Mesmo com eles em movimento, não houve motivos para não aproveitarem a infância que ainda devia existir.

De longe, acima dos zarmos que voavam sobre eles, os thonzes corriam nos galhos das árvores de trinta metros de altura e podiam sentir as vibrações maravilhosas que vinham daquele pequeno veículo à tamanha beleza que os cercava. Nada era tão bonito quanto os jatos de água e os seres de Aquala os seguindo. Somente uma coisa poderia disputar com aquela beleza, o sentimento que Thomas e Laura tinham um pelo o outro.

___________

Na floresta norte, Baltazar se escondia entre as raízes que nasciam do solo. As árvores estavam agitadas e os pedaços de gelo caíam nas poças que haviam formado. As folhas, ainda que frias, estavam vivas, e o vento nos galhos as jogava no ar.

Haydee permanecia viva na garupa do animal, mesmo jogada como uma morta. Muito acima dos topos das árvores, os discos voadores caçavam tanto Balta quanto Lutile e Orivundo. Os meonans sabiam que o tigre estava com a mulher. Eram vigilantes que se negavam a desistir de encontrá-los.

Baltazar andava de acordo com o movimento dos discos acima dos galhos mais altos, escondendo-se minuciosamente. Cada vez que as patas tocavam o solo, ele se atentava a não encostar numa poça sequer. O tigre já não estava tão poderoso quanto parecia ser, talvez pela idade, talvez pelo medo de ser encontrado.

Quando a ventania causada por um disco voador no céu fez até a árvore acima deles tremer, o animal tratou de adentrar um buraco que havia entre as raízes, que mais parecia uma pequena caverna, e ficou de olho no lado de fora através da única abertura com luz. Ele, então, botou a cabeça peluda para fora e caçou Lutile e Orivundo, mas não houve sinal deles. O tigre abaixou, pôs Haydee no chão sombrio abaixo da árvore, e continuou à procura dos companheiros, até que olhou entre as folhas dos galhos que cobriam o céu. Uma lula colossal passava entre os troncos, e acima dela, alguns Protetores de preto e usando máscaras cobertas por espinhos ao redor da cabeça, permaneciam em pé. Eles tomavam as rédeas quilométricas do maior animal voador de Longamínis.

Baltazar reparou que eles haviam passado perto demais de um dos discos. A apreensão do animal aumentou quando ele aguardou uma reviravolta na floresta, e esperou que os Protetores retirassem suas máscaras, erguessem suas capas com ventania e partissem à luta contra o disco voador. Mas nada aconteceu. Eles passaram reto.

– Por quê não está acontecendo nada? – o tigre falou baixinho para si. – Era para eles terem atacado…

– Eles quem? Os Protetores? – falou Haydee com ironia, caída no chão úmido e gelado, tentando se levantar.

– Minha amiga… – Baltazar se aproximou e encostou o focinho laranja manchado no vestido imundo da mulher. – O quê está acontecendo?

– Esses Protetores… – ela falou com repúdio. – Ouvia falar deles quase sempre, quando não estava no meu sono de dor. Ouvia a voz dos sequestradores tocando sempre nos mesmos assuntos. Não houve um dia em que não escutei essa palavra, “protetores”.

– Os meonans conversavam entre eles sobre os Protetores? – o tigre olhava fixamente para Haydee, que rastejava, e tentava ajudá-la. – Não se force muito, ainda está derrotada.

– Não! – a mulher se zangou com o raciocínio lerdo de Balta, que não costumava ter tanta dificuldade em entender. – Os meonan eram os Protetores.

O tigre ficou confuso, não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas naquele exato momento entendeu que um grande problema fincava na vida dos longaminianos, e era para ficar.

– Gukpuk… é esse o nome do governador? – Haydee tinha dificuldade para falar, falta de ar, ânsia de vômito, tonteira, e não conseguia ver praticamente nada por conta do inchaço nos olhos.

– Sim, Blestor Gukpuk…

– Que tem uma irmã… Undilla.

O tigre entendeu que, durante todos esses anos aprisionada como serva da má vontade de almas abomináveis, a tia de Thomas havia escutado o suficiente para a depravação da mente. Ela sabia de coisas demais para a cabeça de uma aqualaeste, mesmo sendo dotada de força magníficas. Haydee tinha consciência de muitos fatos que aconteceram e que poderiam acontecer no futuro.

– Você precisa nos contar tudo. – pediu Baltazar, ainda desnorteado com a situação. Ele sabia que os Gukpuk não eram flor que se cheire, mas a descobrí-los assassinos… isso sim era o suficiente para se enfurecer. Principalmente por terem passado como fiéis governadores aqualaestes embaixo do nariz da SAECI.

O tigre voltou a vigiar a floresta e acabou vendo, sob a confusão de folhas enraivecidas numa tempestade, dois zarmos se levantarem de um recife de corais bem longe dele, onde a água não os tocava. Nas garupas estavam Lutile e Orivundo. Foi o momento certo para Balta colocar Haydee em suas costas novamente e sair correndo dali, já que voando seria arriscado.

– Por quê a pressa? – falou o tigre, ao correr com a mulher nas costas até os zarmos no meio da floresta. – Você e o sr. Gualli parecem estar fugindo.

– E estamos! – respondeu Lutile no momento em que havia reencontrado Baltazar. Eles corriam tão rápido quanto flechas. O zarmo de Orivundo parecia apostar corrida. – Não seremos capazes de derrotar o contigente dentro desses discos voadores.

– Não acha mais prudente irmos devagar e nos escondendo? – indagou Balta, veloz entre os corais.

– Talvez, mas temos que chegar no Instituto Flintch antes dos garotos. – respondeu Lutile.

– E nos deixar visíveis para Tertius? – rebateu o tigre, tentando acompanhar a correria das aves. – Não chegaremos lá se não estivermos vivos.

– Vai ser a melhor surpresa que Thomas poderia imaginar; ele chegar no Instituto e nos encontrar lá com Haydee.

Em questão de minutos eles já estavam bem longe dos discos voadores antigos de Meon. O caminho foi duradouro e quente para eles, presente divino que Phoerios os havia garantido com a ejámule. No momento certo, o tigre sentiu-se livre para voar, mesmo a qualquer instante eles poderem deparar-se com um bando de Protetores em cima de baleias pelos ares de Longamínis, porém, aquele vento no rosto de Haydee era um remédio eficaz contra o enclausuramento da moça, e eles não podiam deixar essa chance escapar.

Boa parte das terras estava alagada, contudo, até o fundo podia ser visto quando o vôo era tranquilo e a velocidade não bagunçava as águas com pequenas ondas. Algumas colinas viraram ilhas, mas boa parte das aldeias e vilas ficavam em alturas onde a água escorria para as florestas, assim as casas não seriam inundadas.

___________

A carruagem de Thomas seguia. As horas passavam depressa no meio de tanta maravilha, e todos já estavam dentro do veículo, secos pelo tempo da tarde esplendorosa e abençoados pelo sentimento de paz que aquele lugar trazia. Os tantos animais que os seguiam foram tomando seus rumos, mas os menores peixes persistiam na companhia dos garotos.

Aos poucos a água diminuía e, depois de muitas horas, as rodas traseiras da carruagem voltaram a tocar o solo sagrado de um novo lugar. Eles haviam chegado a Émi’Lian. Encontrariam outros alagamentos maravilhosos como aqueles, mas, naquele momento, estavam no começo da montanha Levigarde, um extenso rochedo que soltava jatos de água em todas as paredes de pedras, afinal, a estação ejámule não era exclusiva de Longamínis, e sim do planeta inteiro.

Enquanto Frederico lançava sons de sua boca para que os peixes continuassem a puxar a carruagem, Thomas ficava de mãos dadas à Laura, os dois sendo os únicos em pé e com as cabeças para fora. Foi o momento mais romântico que eles tiveram desde que chegaram em Aquala. Olhavam os cardumes nos ares os envolverem e a luz laranja nas nuvens surgirem no céu.

– FREDERICO! – Ophelia gritava, ensandecida, segurando um papel bem amassado. – Continue por esse caminho. O mapa mostra que o destino é no Bosque Abençoado.

A menina olhou bem o papel e Guido também aproximou os olhos dos desenhos de tinta que ela esticava.

– O Instituto é lá? – perguntou o garoto.

– É o que diz aqui. – ela apontou com o dedo gordinho os traços de onde estavam indo.

– Sabem por quê a floresta no topo da montanha Levigarde é chamada de Bosque Abençoado? – perguntou Guido, novamente. Mas não houve respostas. Eles o olharam, esperando que respondesse. Então ele disse: – Foi lá onde Phoerios apareceu pela primeira vez para uma multidão de seres de todas as raças de Aquala. Isso, obviamente há muitos Ciclos Completos. Eles seguiam os raios azuis no céu naquela noite. Vai ver o Instituto Flintch foi construído lá com um propósito, não pelo acaso.

Ninguém discordou do garoto. Guido sabia muito bem das coisas e era tão inteligente quanto Thomas. Não deixava passar nenhum detalhe. Porém, naquela hora, o descendente de Phoerios estava com os cabelos no vento da montanha amena enquanto subiam. E para lá eles foram. Acreditar eles acreditavam, viver eles viviam, amar eles amavam, mas, a partir daquele momento, Aquala permitiu que eles tivessem o poder de amar mais as amizades naquela pequena carruagem que era conduzida para o topo da montanha, onde eles acreditariam que o futuro os aguardava de braços abertos. Onde o verdadeiro amor Flintch poderia ser espalhado.

As vinte e nove horas diárias pareciam passar mais rápido que o normal. Ainda subiam a montanha Leviarde, mas sempre alguém parava a carruagem com o intuito de suprir as necessidades fisiológicas. Eles ficavam, com o passar do tempo, mais aquietados, pensativos e imaginativos, principalmente quando as memórias de suas vidas passavam por suas cabeças.

Guido, depois de alguns anos sem ver sua avó, havia voltado para casa com a ajuda de Thomas. O garoto achava que ela não acreditava no seu potencial em encontrar a Sala de Phoerios, porém, infelizmente, a senhora estava certa. Guido pensava, ao viajar olhando para as florestas através da janela, que se tivesse deixado o orgulho de lado e voltado para o Largo do Castelo antes, teria ainda ajudado sua avó com as vendas da tenda que ela tinha no mercado, além de ter ajudado a crescer a loja de fotografia.

O menino imaginava o que a senhora, que tanto o procurou, estaria fazendo naquela hora ao entardecer. Se ela estaria rezando para Phoerios proteger seu netinho, o garoto não poderia saber.

Guido não tinha ideia de como mandar ligação ulnar para a mão da avó. A senhora também não sabia. Era um poder difícil e caro por um motivo simples, somente professores que cobravam valores absurdos podiam ensinar aquela arte. Por esse motivo, Guido não esperava receber uma ligação ulnar de sua avó, mesmo olhando os dedos e torcendo para que abrissem buracos neles. O menino queria, com toda a força de seu coração, se comunicar com Eleonora. Os únicos ali que sabiam usar esse poder eram Thomas e Ophelia.

A menina gordinha, enquanto a carruagem subia a estrada montanhosa, arrumava o cabelo. Ela apontava as duas mãos em formato de concha para a cabeça e os fios se levantavam sozinhos. Não estava mais sorrindo da mesma forma que antes, mas dava o seu máximo tanto para achar alegria em cada canto obscuro de seus pensamentos, quanto para mostrar um sorriso a seus amigos. Quando os garotos só olhavam um para a cara do outro, a menina tinha o olhar vazio e distante. Ela pensava em seu pai, onde ele estaria e se chegaria bem no Instituto Flintch.

A carruagem sacudia e Ophelia, com a cabeça apoiada perto da janela, pensava até nas focas que apareceram horas atrás durante o começo da ejámule.

Nadjo, com os pés para cima do estofado, imaginava se o caminho era o certo. Não o da estrada, mas sim estar com aquelas pessoas na mesma carruagem abarrotada de gente. Eram seus amigos, mas até que ponto eles seriam os mesmos em relação a ele? O menino se perguntava se aqueles que gostava, seriam amigos tanto nas horas divertidas quanto nas mais sombrias.

Todos eles pensavam em várias coisas a todo o momento. Não tinham muito o que fazer a não ser comer e reler as mesmas revistas. Sofia já sabia de cor os assuntos da “Coques e Tentáculos”, revista preferida de Ophelia. Era de lá que a menina tirava inspiração para seus penteados exêntricos.

Laura permanecia com a cabeça apoiada no ombro de Thomas. Ele, volta e meia, passava a mão nos cabelos morenos e macios da garota. Davam um beijo e se abraçavam, mas mesmo com as horas passando e o dia entardecendo, eles não se abatiam com o tédio, pois, por incrível que pareça, podiam passar o dia sem fazer absolutamente nada, nunca seria entediante se estivessem juntos. Não só o casal, mas sim a quase todos na carruagem.

Tudo estava em silêncio, exceto pelo barulho das rodas no chão e o som das águas no lado de fora. Havia paleones voando no céu rosa, e alguns incríveis animais que os garotos podiam ver de longe, mas não descobriram o que eram. Ferterik era como se chamavam, porém o máximo que viram foram vários deles pulando como tzíkers pela floresta há quilômetros abaixo deles. Pareciam bolinhas que Felipe colecionava em sua infância, que quicavam como pererecas, só que os ferteriks andavam juntos e alcançavam alturas quilométricas. Esses animais eram insetos que se alimentavam de grama, e o faziam quando, a cada pulo, encostavam na terra. Suas bocas cheias de dentes comiam com destreza os restos de plantas que encontravam por ali.

Rosana chamou o filho para ver aqueles insetos pularem na floresta. Eles se lembraram do dia em que Lutile havia entregado a bala de caramelo que os fez saltitar de prédio em prédio até chegarem na casa de Thomas. Além da saudade do velho, os garotos também sentiam falta de um bom doce em suas bocas. Ophelia já não tinha mais em suas malas. A bolsa de mão que a menina usava somente para guardar doces Gualeis para quando a vontade chegava, já estava vazia.

Foi em um momento daqueles que Thomas, jeitoso, tirou a cabeça de Laura de seu ombro para pegar um jornal, entre tantos outros que estavam na mão de Sofia. Era o mesmo que Crintyk havia recebido do correio naquele mesmo dia. Pelo jeito, ela acabou por esquecer dentro da carruagem. O garoto pegou o papel amassado e olhou para a primeira página, onde tinha em destaque Blestor e Undilla Gukpuk, então ele abriu na matéria e mostrou à Laura.

– Não pode ser verdade, – disse a menina, quando observou Luana e Alan fotografados com o governador e sua irmã.

– Como não poderia ser verdade? – Thomas perguntou. – É o Extraqualaeste.

Felipe arrancou o jornal das mãos do amigo, louco para saber sobre o que falavam, e levou o mesmo susto quando olhou a matéria. Enquanto Laura continuava inquieta com a notícia de que os antigos colegas da Damatio estavam envolvidos com os Gukpuk, Thomas mandou Felipe observar quem havia escrito a matéria.

– William Art. – o garoto leu. – Thom, não era esse tal de William Art um amigo do seu pai?

Thomas acenou que sim com a cabeça e falou:

– Nada pode estar errado nesse jornal. E também porque estaria? Pelo que eu saiba, o Extraqualaeste é o melhor de Longamínis.

– Eu sabia que esses daí não prestavam! – intrometeu-se Ophelia.

– Todos nós já sabíamos disso, – respondeu Felipe. – só que agora eles chegaram a um outro nível.

– Só por estarem metidos com o governador? – perguntou Nadjo.

– Exatamente por isso! Nós sabemos que Blestor e Undilla não prestam.

– E sabemos que Alan e Luana também. Então para quê se preocupar? – continuou Nadjo. – Deixem que se entendam.

– Mas e se esse mal tocar Longamínis? – perguntou Guido. – Porque vocês querendo ou não, as intenções de um governador influenciam no lugar onde ele tem poder.

– Agora é rezar para Phoerios – falou Nadjo.

– Vamos rezar, e muito! – disse Laura. – Mas também vamos conseguir mudar isso. Não agora, mas quando algo chegar à população sobre os Gukpuk, teremos com o que lutar para que saiam do poder. Enquanto isso, não podemos fazer nada.