Capítulo 6 – As travessuras dos Gukpuk.

“O preconceito da raça é injusto e causa grande sofrimento às pessoas.” – Voltaire, filósofo iluminista francês.

AINDA ERA NOITE. Thomas estava debruçado na varanda gelada do hotel Yerlek, enrolado em cobertores e olhando as florestas cobertas de neve. Uma das luas de Aquala, Orèndi, orbitava tranquilamente no céu mais estrelado do universo, onde os pontinhos brancos navegavam nas ondas das luzes que se encontravam na atmosfera. Aquela grande bola laranja estava tão perto, que o garoto tinha até a sensação de que, se passasse pelo Castella Hondeias, poderia derrubar sua torre mais alta.

Crintyk saiu da porta e soltou um bafo de quem começou a congelar só de estar do lado de fora, e, mesmo com alguns casacos cobrindo o corpo esverdeado, ela esfregou as mãos nos braços.

– Menino, não fique aqui fora! – ela falou, mas logo abaixou a voz ao lembrar que todas as luzes de dentro do hotel já estavam apagadas e que havia pessoas dormindo. – É perigoso a uma hora dessas.

– Mesmo na varanda? – perguntou ele, cujas olheiras estavam pesadas. – Estamos no quinto andar.

– Por acaso você tem perda de memória? – ela se aproximou da beirada da sacada. – Um monstro o feriu gravemente há poucos minutos atrás. Você não é Phoerios. Você é descendente dele. Em outras palavras, você pode morrer, então não se arrisque muito.

– Estou muito forte, se quer saber. – ele falou de modo sereno, olhando a floresta e as colinas longínquas. – Eu me recupero de um jeito que as outras pessoas não conseguem.

– E isso o está perturbando. – a cervuni supôs.

– Mais pelos meus amigos – ele concluiu. – Eu sei que eu posso me machucar à vontade, sem muitos exageros porque, às vezes, dói muito. Mas e eles? Se qualquer coisa acontecer com eles a culpa será toda minha. Felipe é meu amigo há muitos anos, crescemos juntos e sempre esteve em primeiro lugar. Obviamente não foi o único, mas apenas ele importava. Sofia eu também conheço há bastante tempo, e, hoje, é tão importante quanto.

Thomas esfregou as mãos enquanto continuava a falar, agora cabisbaixo. – Eles estão aqui por minha causa, e se alguma coisa acontecer a eles eu nunca vou me perdoar. Eu sinto que não sou um amigo tão bom quanto eles.

Crintyk deu uma risada baixinha, e o garoto perguntou o porquê de estar rindo.

– Menino, você está precisando de um ombro pra conversar, não está?

– Por quê pergunta?

– Está soltando tudo o que quer falar, e isso é ótimo. Me sinto até privilegiada por ser confiável aos olhos do descedente de Phoerios.

Thomas deu uma risadinha tímida.

– Mas… e aquela menina? – a cervuni perguntou como quem queria chegar em algum lugar. – A morena que veio com vocês.

– Laura?

– Ela mesma – a mulher se debruçou também na sacada. – Você falou do Felipe, da Sofia, mas não falou dela.

O garoto pensou bem no que ia falar.

– Bem, eu a conheci pouco antes de vir para Aquala – ele disse, terminou, e olhou para Crintyk.

– Está me olhando por quê? – ela riu, deixando o menino mais sem graça ainda. – Prossiga, fale sobre ela.

– O quê quer saber? – ele também riu com o rosto rosa.

– Da importância dela.

O garoto ficou calado durante alguns segundos e respondeu:

– Ela é tão importante quanto os outros dois.

– Não é não. Ela é mais importante que “os outros dois”. – a cervuni apontou o dedo comprido no peito de Thomas.

– Óbvio que não! Laura é minha amiga!

– Menino, posso não parecer, mas sou bem vivida. Conheço histórias de amor muito menos interessantes. Quem você quer enganar?

Ela segurou o rostinho do garoto e o levantou.

– Estou falando isso porque gostei de você. Mostre a ela o quanto você se importa.

– Eu quero… e muito, mas estou passando por tantas coisas que seria egoísta querer ter alguma coisa com a Laura. Tenho amigos que foram para muito longe buscar uma outra pessoa que não vejo há anos. Eles estão lutando por mim, para me ver feliz. E imagina eles chegarem e eu estar de romance. Enquanto eles passam o sufoco, eu só fico com a parte boa? Não é assim que funciona.

– Você é bom em raciocinar sozinho. Devia falar para si mais vezes. – Crintyk sorriu. – Falou tudo o que eu deveria ter dito.

– Eu não paro de pensar em tantas coisas… Minha cabeça está atordoada. Primeiro é meu pai, depois são esses amigos meus que foram salvar minha tia. Tenho medo de que voltem feridos, ou que não voltem. Fico preocupado que aconteça alguma coisa com todo mundo, e principalmente com a Laura. Tenho aversão ao governador Gukpuk…

– Por quê? – a cervuni falou seca.

– Desculpe se você gosta dele como governador, mas…

– Pode falar à vontade, menino. Esse homem é o culpado de tanta agressividade que ocorre no meu bar. Quase todos os dias os tais dos Protetores quebram o que bem quiserem no primeiro andar. Se tem algo que eu quero ouvir agora, é você falar o que pretender sobre Gukpuk.

Thomas respirou fundo antes de falar.

– Quando estava no Castella, recebi uma visita de um xamã que tinha viajado de bem longe para poder me ver. Eu fiquei desacordado durante uns dias porque fui vítima de mais um ataque de Meon, e naquele dia tinha sido ao castelo. Era destroços para tudo o que era lado.

– Eu soube, li no Extraqualaeste no dia seguinte. – Crintyk disse seriamente, como boa ouvinte.

– Então, quando acordei estava intacto, e os jardins do Castella Hondeias ficaram cobertos por flores que nasciam sob a neve e cresceram depressa. Eram do meu tamanho. O xamã disse que foi um presente da minha mãe, e no mesmo ciclo menai Blestor Gukpuk e sua irmã cadavérica ordenaram que os artracóis tirassem cada flor indevida. Elas tiveram que ser arrancadas pelas raízes, mesmo com o xamã tenho uma árdua conversa com eles na torre mais alta e pedindo para que não mexessem com os espíritos brancos. Segundo o thonze ancião, quem perturbar o sobrenatural, será retrucado.

Crintyk olhava para longe enquanto o garoto contava o que lhe atormentava, e quando ela percebeu que Orèndi estava prestes a tocar a primeira montanha ao leste, pediu para que Thomas a acompanhasse até o bar no primeiro andar.

Um novo céu começou a nascer, e o frio absurdo, a desaparecer. Eles entraram e desceram as escadas.

– O que quer me mostrar? – perguntou Thomas.

– Nada, menino. Eu espero o correio chegar para ler as notícias e me recolher para dormir.

– Meu pai dizia que não era bom se deitar ao amanhecer. – o garoto passava os dedos no corrimão.

– Não tenho escolha, Flintch. É o meu trabalho, mas eu não tenho do que reclamar, eu gosto. E além disso, os meus funcionários vão acordar a qualquer instante e irão cuidar bem dos hóspedes.

As luzes do dia em poucos minutos chegariam e clareariam as paredes do bar e hotel Yerlek, mas até então apenas os feiches da ilmuninação azul do céu adentravam as escadas e iluminavam Thomas e Crintyk.

A cervuni abriu a porta do primeiro andar e se deparou novamente com uma visão calma, congelada e branca.

– Esse pessoal, dos correios, é bem pontual. – ela disse, de braços cruzados, enquanto a fumaça saía de sua boca a cada palavra. – Já sei de cor que cinco minutos depois que Orèndi passa pela montanha leste, eles entregam o jornal. Olhe, já vai chegar.

Um pouco longe deles havia uma poça que não estava congelada. Na verdade, ela se chamava Correntilesse, e era um rio. Propriedade dos correios. Esse rio era o único que passava por Longamínis inteira, e estava em cada cantinho.

Thomas viu somente uma poça d’água ao redor dos arbustos cobertos por neve. Era como um pedaço do rio congelado que estava quebrado. O garoto percebeu que a correnteza era muito forte abaixo do gelo, e quando ele menos esperava, uns rolos de papel pesado saíram da água com tanta velocidade e força que pareciam jogados por arremessadores de baseball imersos no gelo. Os rolos bateram num balde preso na parede da varanda ao lado de Crintyk, que logo os tirou de lá, mostrando o costume que já estava em sua vida há anos.

– Teria como ler as notícias para mim? – ela entregou o jornal e a revista a Thomas. – Enquanto isso vou até a garagem tirar a carruagem.

Ele a seguiu pela neve, lendo a manchete do Extraqualaeste, que estava em letras tão grandes que só faltava pular para fora da página.

– “Gukpuk implementa nova lei”.

– Isso não é novidade, não é mesmo? – falou a cervuni. Deu para sentir indignação em sua voz. – Já sabemos que ele quer levar essa história de fazer novas leis diariamente adiante. Se quiser ser um bom político, que tal acabar com os problemas e parar de inventar outros?

– Acha que ele está fazendo errado? – Thomas a olhou, duvidoso.

– Esse homem não presta. Vá por mim. Nunca erro nos meus palpites. – ela parou na frente do estábulo e levantou os braços acasacados.

– Tem também outras notícias de primeira página… – o garoto falava, enquanto o portão de madeira levantava e mostrava a água do piso ao teto com a carruagem dentro. Ele lia. – “Poeta, jornalista e criador de potucos, morre o escritor do novo hino de Longamínis, Jarvirone Lasfy.”

– Algo de mais interessante? – Crintyk trazia, através de poderes, a carruagem e os peixes que a puxavam, para fora da água.

– “Empresas lapidadoras de zarédias disputam o comércio com a pioneira Marktna L.C”. “Assalto no Salão Prontal mexe com os cidadãos do Vale Menecau”. – Thomas endireitava o jornal com as mãos, para que conseguisse ler sem rodeios. – Vou por na página do governador.

Crintyk esperou, em silêncio, o garoto achar a notícia e começar a tagarelar. Enquanto isso, a água da carruagem escorria e os peixes, arredios, se acostumavam novamente com o frio.

– Achei! – o garoto falou. – “Na noite de ontem, o governador Blestor Gukpuk e sua irmã, Undilla, divulgaram para a redação que a nova lei proibirá o contato direto entre humanos e as outras raças. Gukpuk ainda afirmou que a nova lei tem o intuito de ajudar a população, uma vez que cada espécie tem forças diferentes e são perigosas juntas. ‘As punições para quem for contra, serão severas’, disse ele aos repórteres William Art e Lia Caputo, durante entrevista.”

– Que homem desumano. – afirmou Crintyk. – Ele é filho de Tertius, filho do mau! Como alguém pôde fazer isso? Existem famílias de cervunis e humanos. Blestor Gukpuk é um ser desgraçado! – ela se descontrolou e se apoiou na carruagem, mantendo-se em pé e lutando contra a raiva que a deixava abalada. Thomas a olhou com todos os seus sentimentos nos olhos. O garoto sentiu naquele mesmo instante que suas mãos estariam atadas e ele, impedido de agir. Continuou, um tanto aturdido com o que havia acabado de ler.

– “Como parte cultural longaminiana, o governador teria direito a um conselheiro. O prodígio de Blestor Gukpuk chama-se Alan Palani, é um corredor de zarmos e vencedor de vários troféus. Para os leitores que não sabem, o papel dos conselheiros é ajudar o governador em suas decisões, e o fazem com a purificação das ninfas da floresta, que dão poderes de visão. Undilla Gukpuk também ganhou uma conselheira, a menina Luana Roans Lopez, filha do milionário Augusto Martins Lopez.”

Naquele momento Thomas teve que reler para acreditar. Seus antigos colegas de escola estavam metidos nos assuntos de política da família Gukpuk. Eles eram realmente quem pareciam ser, dois monstros.

_______________

Ainda naquela madrugada, o Castella Hondeias parecia estar intacto. Tudo estava tão sereno quanto deveria. As tochas iluminavam os jardins de neve e suas chamas chegavam a fazer barulho de tão ardentes. Os cristais de gelo nas árvores cintilavam os ouvidos no silêncio e apaziguavam os corações raivosos. Contudo, Blestor não estava no jardim e sim em sua cama. Ele se sentia mal, gostava de estar assim. Não pelo fato de ser um homem normal, porque ele não era. Ele era um servente, um escravo que gostava do serviço. Um serviçal vagabundo que carregava na alma o peso da amargura, mas a incessante vontade de cometer barbaridades.

Gukpuk acordou com um som tão agudo que parecia baixo, e acordou. Não houve susto ao abrir os olhos, pois ele já sabia o que aconteceria. Tirou o cobertor vinho aveludado de cima e sentou na cama. Um braço lhe estendeu um hobby de mesma cor. Ele olhou e viu vários homens ao redor do quarto, todos de preto até o piso de mármore e máscaras de porco espinho no rosto. Eles estavam parados e o vigiando, iluminados pela luz da noite que atravessava a janela. Então, Blestor sorriu, pôs os pés no chão frio e vestiu o hobby. Escoltado por seus guardas, ele andou até a abertura de porta dupla abobadada de seu cômodo e ela foi aberta para que passassem todos juntos. Andaram calmamente pelo largo corredor e passaram pelas estátuas de pedra, que não eram as mesmas de quando Thomas morava lá, eram diferentes. Os olhos entregavam a verdade. O Castella Hondeias já tinha mudado um pouco.

Undilla, em seu quarto, abriu os olhos e ficou inexpressiva. Quando sentou na cama, viu uma menina bonita longe ao lado da mesinha. Era loira e vestia um roupão rosa.

– Venha cá, meu amor, – a mulher esquelética esticou o braço e a chamou. – está na hora.

A menina hesitou um instante, mas resolveu sair da penumbra.

– Estou pronta, senhora – falou Luana Lopez, amedrontada e com as mãos na frente do corpo.

Um Protetor, que surgiu misteriosamente, segurou delicadamente a mão de Undilla e a ergueu. Ela levantou como uma pluma e segurou as mãos da garota.

– Vai dar tudo certo. – ela penetrou nos olhos da pobre alma e sorriu. – Se você sofrer, não feche os olhos. Continue sofrendo. Assim será melhor.

– Senhora, – Luana soltou a mão da velha. – estou com medo.

A madame lhe deu um tapa que a fez cair no chão. O cabelo lhe cobriu o rosto, e ela, deitada no gelado piso, tocou na bochecha vermelha. Na mesma hora, Undilla passou as mãos na cabeça e suspirou, ajeitou o vestido de zarédias que usava para dormir e estendeu a mão ossuda à garota.

– Meu bem, me desculpe, – ela ainda sorria. – mas às vezes precisamos cair para nos levantar. Se você cair sozinha, eu a levantarei.

Sem entender e agindo a seu favor, a menina segurou a velha e a abraçou.

– Você pode confiar em mim para tudo. Eu estarei aqui como uma mãe. – ela segurou o rosto de Luana e tirou os fios de cabelo dos olhos e do nariz. Ela sussurrava. – Nosso maior medo é temer, meu amor. Agora me dê a mão. Eu irei lhe ensinar uma arte.

Os Protetores se aproximaram delas e as fecharam, como se fosse um círculo, e elas, no centro, foram com eles.

Undilla era uma pecadora, mas seu maior erro era gostar de pecar e não querer mudar. Ela e o irmão iriam se encontrar naquela hora, no momento perfeito para pecar, mas a única coisa que detestava era ter a obrigação de acordar cedo daquela forma. O resto ela faria porque tudo o que era para Tertius era prazeroso.

Estava tudo bem escuro. Ela e sua conselheira andavam juntas para a missão. Ela sorrindo e Luana nem tão feliz.

– Onde está aquele utensílio azul nauseante? – a velha perguntou, com sua boca fina e enrugada, ao Protetor mais próximo.

– Preferimos usar as velas, como a senhora nos mandou. – ouviu-se a voz abafada do homem atrás da máscara de porco espinho.

– Isso mesmo. Aproveite e jogue fora todos os fígados azuis desse castelo. Aquela luz me dá um pouco de dor de cabeça.

Eles chegaram em um salão redondo que era enorme o suficiente para dar uma festa para toda a população de Longamínis. Apenas havia uma luz bem no meio dela, e lá estava Blestor com a mão apoiada no ombro de Alan. Os Protetores presentes eram poucos, apenas aqueles que guiaram o governador e sua irmã. Os outros poderiam esperar do lado de fora do castelo.

– Boa noite, meu irmão. – Undilla reverenciou-se. – Estou animada e você?

– Nós vamos nos preparar para ensinar a bondade a nossos cidadãos, e não posso ficar mais satisfeito em fazer corretamente o meu papel. – ele olhou para Alan, ao seu lado. O garoto estava despreparado para ver o que estava prestes a acontecer. Tentou disfarçar o temor, sorrindo para o governador.

– Estou tão feliz em fazermos o bem, meu irmão. Isso me enche de felicidade. E ainda tenho que aturar o medo dessa vadiazinha. – Undilla olhou obscuramente para Luana. A menina prendeu a respiração e entristeceu o rosto, apavorada.

Blestor, sem expressão alguma na cara, deu passos lentos até a menina e a olhou bem de perto por um tempo, de olhos bem abertos. Ele a socou e ela novamente caiu no chão. O homem gordo virou-se para Alan e perguntou:

– Também está com medo?

O garoto respondeu que não com a cabeça e ficou olhando Luana levar um chute ou dois enquanto estava no chão.

– Querida, nos perdoe. – a velha agachou e segurou a menina pelos ombros. – Você só precisa aprender a não temer. Mas acho que agora ela já entendeu, não é Blestor? – o esqueleto com pele olhou para cima, fitando o irmão.

– Minha linda criança, agora está pronta para assistir. – o gordo Gukpuk falou e, em seguida, gritou para os Protetores. – Tragam-nos!

Deu tempo para Luana se levantar e, somente com o olhar, pedir socorro a Alan, mas o garoto não podia fazer nada. Em poucos segundos, dois homens de preto e máscara de porco espinho chegaram trazendo um aldeão humano e uma aldeã thonze que segurava uma linda e fofa criança no colo. Era a recém nascida filhinha do casal. “Por aqui, senhor” e “Que bebê lindo a senhora tem” foram duas das inúmeras frases que o casal escutou até chegar ao muro de pedra no centro do salão.

Os dois simples aldeãos se curvaram para o governador e sua irmã, enquanto eles os encaravam de forma crua.

– É um prazer estar ao lado de figuras tão importantes da nossa província! – sorriu a thonze, que tinha os tentáculos da cabeça presos numa rede, como um grande coque.

– Eu e minha esposa somos inteiramente gratos ao senhor e à senhora. É um presente que nos fará bastante feliz pelo resto de nossas vidas. – o simples homem sorria, sem graça, com os olhos molhados. – Mas queria saber o porquê, se não for abuso, de sermos presenteados com uma casa nova, além de tudo, no Largo do Castello, o lugar mais caro de se ter uma casa por aqui.

– O presente de vocês será outro. – falou Blestor, friamente. – Já que gostam tanto da sua província, ficarão muito felizes em saber que nela não existirá mais pessoas que não seguem a Lei, como o casal mais ridículo que já pisou em Aquala, vocês.

O aldeão foi jogado sozinho para trás, onde bateu a cabeça no muro com força. Ele não conseguia se mexer e nem falar.

– Gynzo? – a thonze gritou assustada e o bebê começou a chorar. – Solte-o, por favor, eu imploro!

Blestor, calado, fixava os olhos vermelhos no rosto de homem, há um metro de seu braço esticado. O gordo não parecia estar forçando muito, mas só o pobre aldeão podia sentir a dor do estrangulamento naquela hora.

Luana fechou os olhos e virou o rosto. Ela, então, pôde ter uma ideia da situação que estava envolvida, mas tudo ainda permanecia manso demais para a mente dos Gukpuk. Tudo ia piorar.

Undilla segurou, sem nenhuma delicadeza, o queixo da garota e a obrigou a prestar atenção no rosto roxo e inchado do pobre homem, que estava tendo a cabeça jogada contra o muro. O corpo todo estava suspenso no ar e o crânio sendo amassado nas pedras tão duras quanto concreto. A thonze, com o bebê em um dos braços, adentrava o desespero. Tentou tirar o marido da crueldade diante dela, onde os ossos dele já eram expostos.

– Isso é tão sujo! – falou Blestor, ainda com o braço esticado e apontado para a garganta do aldeão. – Como um humano pode pensar em ter um filho com um animal igual a você?

A thonze gritava em prantos para que largasse o marido, mesmo ele não estando mais com vida. Ela não ouvia nem o que o governador a dizia, apenas tentava salvar seu homem.

Luana olhava fixamente o assassinato. As lágrimas escorriam de seus olhos como cachoeiras, e o pescoço da menina chegava a estar molhado. Ela estava aterrorizada mas não podia dizer uma palavra sequer, pois não duvidaria que se o fizesse, seria ela com o crânio quebrado em vários pedaços.

Quando Blestor abaixou o braço, o corpo ensanguentado caiu no chão, e a thonze jogou-se para ampará-lo. Ela segurou, tremendo, a cabeça do marido pela metade. Era uma bola vermelha, molhada e murcha onde não se encontrava os olhos, nariz, boca, nada. Vários gritos saíram dela, enquanto o choro do bebê ainda invadia a cabeça de Undilla.

A irmã de Gukpuk ficou com as pupilas vermelhas e dilatadas, era o bom e antigo poder meonan que fez a thonze se calar e levantar do chão. A velha controlava todos os movimentos dela. A jovem segurou a bebê com um braço, e, com o outro, retirou a rede na cabeça, que prendia os tentáculos. Ela tremia toda porque tentava, com todas as forças, se soltar daquele maldito poder. Era a alma tentando fugir do corpo amaldiçoado. Somente os olhos diziam a verdade, o verdadeiro sentimento de pavor, medo, solidão e ódio que a thonze sentia, porém, com eles soltando lágrimas, ela olhou para Luana e Alan, que também choravam em silêncio, como pedido de ajuda, mas era cada um por si.

Undilla fez a thonze, de coração em prantos, sorrir e tacar a filhinha no chão. Naquele mesmo momento o choro agudo terminou, junto com a dor de cabeça da velha. A partir daquele instante, os olhos de Alan encheram-se de misericórdia. Ninguém escolhe nascer de um jeito, mesmo os Gukpuk achando que aquele jeito era o jeito errado. A última coisa que os meninos viram foi um ser puro de Aquala ser cortado em vários pedaços e desmontado como um quebra-cabeças de mil peças. Os tentáculos caíram no chão e se contorceram como minhocas.

– Pronto! – falou Undilla, sorridente, para Luana. – É assim que deve ser feito, minha querida. Com muito amor. Agora vamos cuidar desses machucados.

– Meu rapaz, – Blestor passou a mão na cabeça de Alan. – isso não irá se repetir, eu prometo. Pelo menos eu e minha adorável irmã não sujaremos mais nossas mãos com esse tipo de sangue. Vamos tratar de assuntos mais importantes. Não que justiça não seja importante, mas o que eu quero dizer é que a província deve seguir adiante. Os Protetores tratarão de punir quem estiver fora da Lei.

Aquela cena nunca mais sairia da cabeça daquelas crianças. Luana e Alan estariam prontos para verem coisas piores mais tarde.

Do lado de fora do Castella Hondeias, o dia começava a clarear, e a luz da manhã tocar a neve. Contudo, parecia haver uma procissão, vários artracóis andavam como sem-tetos. Eles estavam fugindo daquele lugar. Carregavam seus poucos pertences em sacolas e panos acima das cabeças. Essa raça era a “faz-de-tudo” dos aqualaestes, graças a seu modo lerdo, mas pelo menos incansável, de trabalhar arduamente sem reclamar. Os artracóis sabiam que tudo iria mudar em Longamínis daquele dia em diante, principalmente depois da chegada do jornal Extraqualaeste aos aposentos do Castella Hondeias. Com uma simples bisbilhotada na principal notícia sobre a nova Lei, eles já imaginavam o que viria pela frente. Antes de se tornarem escravos, preferiram fugir do castelo.

Erlize, a manleira humana e chefe daquele grupo, olhou para trás e deu, indignada, uma última olhada no gigantesco portão do jardim. Ela, que estava acabada e destruída por dentro, também parecia remoída por fora, graças a seu cabelo frizado no vento e a cara desnutrida e doente. Um de seus braços estava pela metade, ela o tinha perdido no dia do ataque meonan ao Castella Hondeias. Ela se amargurou em lembrar que havia perdido o braço protegendo o lugar que morou durante toda a sua vida. Era triste olhar para trás e ver que também havia perdido sua casa. Erlize se recusou a morar no mesmo castelo que o governador. Ela tinha visto os Protetores levando o casal de aldeões para o salão redondo, e teve a certeza de que já estavam mortos.

Os artracóis rastejavam suas patas quentes na neve que umedecia a pele marrom. Não tinham para onde ir, apenas caminhavam para seguir com uma vida ausente de amarguras e repleta de paz. Eles acreditavam que ir para a floresta ou para até outra província, seria o jeito mais fácil de viverem mais tempo. Apesar de serem seres honrados, eram plenamente amedrontados, e viver com medo era um jeito de morrer ainda estando vivo.

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