Capítulo 5 – O resgate de Haydee.

“Medo e preconceito podem ser sinais de desinformação.” – Guândaloos Finto’Malik, rei de Atlântida e ex-corredor zarminiano.

CRINTYK SE APROXIMOU, acompanhada de Meydana e de Frederico. Eles olharam para o corpo pálido no chão e a cervuni levou as duas mãos à boca, estava aterrorizada.

– Isso nunca aconteceu no meu hotel. Levem-no para o bar, precisamos reanimar esse menino.

– Vão embriagá-lo? – a sra. Guinard a olhou, embasbacada.

– Darei sopa, se quer saber, madame. No bar ainda costuma ser mais quente que no décimo primeiro andar. Venham, tragam o garoto. – apressou-se Crintyk, descendo as escadas enquanto secava as mãos no avental.

Felipe, Nadjo e Guido flutuaram o corpo de Thomas escadas abaixo, com muito cuidado. A cervuni abriu as bancadas procurando por algo, estendeu três cobertores em cima de uma mesa perto da lareira. Os garotos puseram o corpo de Thomas ali e o enrolaram para que ficasse quente novamente. O menino tinha cortes no rosto que pareciam não ser tão graves, e tentava abrir os olhos com dificuldade. As pupilas se reviravam.

– Temos que cuidar desses cortes. – Laura lançou-se na frente de todos na roda de gente em volta do garoto, e segurou sua cabeça.

– Dar-lhe comida é mais necessário agora. – falou Crintyk, e logo em seguida, veio com uma colher de pau na mão. Aproximou-se, acompanhada da flutuante potuca Meydana que segurava uma panela fervente pela alça.

– Mas eu vi aquela criatura fazer o sangue dele sair por esses cortes. Havia muito sangue – a garota insistiu, mesmo vendo no rosto de Thomas que os ferimentos não estavam tão graves quanto imaginava.

– Esqueceu que ele é descendente de Phoerios? – questionou Nadjo, inserindo-se na discussão. – Ele é mais forte do que vocês pensam.

– Esse menino tem sangue divino? – indagou a cervuni, fitando bem o garoto e quase sorrindo de felicidade. – É uma honra tê-lo aqui em meu hotel.

Cada colherada de sopa foi essencial para que, em alguns minutos, Thomas voltasse a falar. Ele já enxergava tudo normalmente e não precisou forçar a fala para que as palavras saíssem. Era como se a garganta estivesse seca e cada sílaba reproduzida fosse sair pelo nariz e não pela boca. Crintyk conversava com os garotos enquanto enfiava a colher de pau na boca do Flintch até a goela. Ela contou a história da sua infância num acampamento e como resolveram que a chamariam com o mesmo nome da deusa de sua raça.

As olheiras de Thomas estavam mais avultadas que o normal, assim como sua vontade de não ouvir mais aquela história, mas pelo menos ele conseguiu falar.

– Estou com sono, melhor voltarmos a dormir.

– Mas Tom, você tem que melhorar antes de qualquer coisa – disse Laura, segurando-o pelo rosto.

– Eu estou muito mal mesmo – o espaçoso garoto tratou de piorar um pouquinho. – Cuida de mim?

– Outro folgado… – resmungou a cervuni Crintyk, batendo a palma da mão na perna.

– Vocês viram o que era? Quem o atacou? – perguntou Ophelia. O rosto inchado era de quem havia acordado no susto no meio de um spa.

– Eu vi – impôs-se Laura, sentada e virada para a mesa onde Thomas estava deitado. – Acho que já o vi antes, mas não pessoalmente. As histórias que contam para as crianças aqui em Aquala, uma delas é sobre um bobo da corte, um funcionário de Tertius que desmembrava os jovens para entreter seu Imperador.

– Quem atacou esse menino foi o bobo da corte de Meon? – perguntou Nadjo, não acreditando que poderia ser verdade. Laura respondeu que sim.

– Temos que enviar uma carta urgente ao governador Gukpuk. – bradou Crintyk.

– Blestor Gukpuk não irá fazer nada a respeito – intrometeu-se Guido. – Thomas e eu ouvimos os Protetores que entraram por aquela porta segundos antes do bobo da corte aparecer. Eles pediram o que?

– Para que não saíssemos porque era perigoso… – respondeu Crintyk.

– Perigoso? Sim, mas eu acho que as intenções deles foram outras.

– Do que você está falando?

– Vocês não acham curioso o fato desses tais Protetores invadirem Longamínis e se espalharem pelas florestas no mesmo dia em que esse tal bobo da corte de Tertius chegou pela luz no céu?

– O que o Guido está falando se encaixa perfeitamente – ponderou Felipe. – Talvez Blestor tenha os colocado para impossibilitar que alguém, seja um aqualaeste normal ou da SAECI, impedisse que entrasse em Aquala.

– A primeira impressão que temos dos Gukpuk não é a melhor, – interveio Sofia. – mas vocês podem estar se precipitando, isso é uma acusação muito grave.

– Talvez o governador seja um aliado de Tertius, quem sabe? – vociferou Guido.

– E o que a gente faz? – perguntou Laura.

– Nada… não podemos fazer nada para mudar isso, somente a Assembléia Deltimoral tem esse poder. O máximo que podemos fazer agora é tentar dormir de novo e voltar para o nosso caminho pela manhã.

– Vamos dormir em que quarto? – a garota questionou.

– Como assim? No quarto do décimo primeiro andar – falou Crintyk, seriamente.

Não foi fácil para ela ouvir que seu hotel havia criado tantos buracos em tão pouco tempo, porém ela tentou não se exaltar.

– Vamos pagar cada centavo – disse Thomas, mais corado desta vez.

– Não quero que paguem nada. Vocês não foram os culpados, mas se o palpite de vocês estiver certo sobre o governador, ele sim irá pagar. Falo isso em nome da deusa dos thonzes e dos cervunis.

Os garotos resolveram voltar a dormir, já que não tiveram muita sorte naquela noite. O quarto dos fundos foi primordial para que tirassem um cochilo antes de voltarem para o caminho do Instituto Flintch. O cômodo era pequeno e eles tiveram que se apertar bem, afinal, era difícil para oito pessoas se acomodarem bem num armário de panelas, onde qualquer batuque era facilmente ouvido em pequenos toques.

Orivundo Gualli, Lutile e Balta estavam bem apressados entre as montanhas pálidas além do mar de gelo onde passaram a noite. Ao contrário do bar Yerlek, eles tiveram algumas horas de descanso num hotel na vila Charmity chamado Brenilós, onde as letras grandes e vermelhas ocupavam uma fachada de pedras. As escadas da entrada eram aparentemente flutuantes, o que obrigava os clientes a ter que levantar mais alto o pé, todavia após uma série de escadarias, quem entrasse encontrava vários corredores sob a luz da noite, erguidos por grossos galhos de árvores. O caminho era bambo. O teto de vidro impedia que a neve caísse no soalho, porém as plantas curiosas que lá viviam não deixavam de esticar-se nos vasos para dar atenção aos visitantes, como gatos que roçam nas pernas de seus donos.

As poucas horas de sono lhes foram satisfatórias para a corrida que já estavam enfrentando no final da madrugada. Ainda estava bastante frio, mas, pelo menos, a neve já tinha parado de cair. Quando partiram da vila Charmity, eles olharam bem para o grande relógio da alta torre no meio da praça, em poucos instantes ele marcaria o fim do inverno e o começo da ejámule.

A aurora começava a aparecer no horizonte entre os picos das montanhas, porém eles já se encontravam em campos cobertos por flores que haviam surgido sob a neve, e, perto dos limites da floresta, tinham alguns prédios antigos e casarões aos pedaços, abandonados. Lutile desceu do tigre Baltazar e esfregou uma mão na outra, avistando o que seria a fábrica Gualeis. As torres não soltavam fumaças mas sim nuvens coloridas, como se a cada segundo os restos de doces fossem soltos ao vento.

– Por quê não demoliram todas essas construções? – o velho Lutile perguntou, adentrando o mar de flores que alcançava suas canelas.

– Eu já pedi para que dessem início, inclusive contatei o ex governador Lamboríe, mas não foi viável. – respondeu o sr. Gualli, enrolando os bigodes. – Se pode perceber, a fábrica não é muito grande, tem um muro que impede invasões e um portão alto o suficiente cujas chaves apenas os funcionários possuem.

– Creio que, com o governo atual, seja ainda mais difícil de demolir esses prédios abandonados para que a Gualeis cresça. – disse o tigre, já imerso entre as flores de caules altíssimos que a cada passo pareciam maiores, e realmente eram. – Agora nos diga, Orivundo, qual desses é o hospício Lanacius.

– Trazia muito Ophelia quando ela era menor e sabia perfeitamente onde se situava, mas acho que não me lembro muito bem… talvez seja aquele casarão com as duas torres entre os escombros, aqueles que parecem um par de chifres – o sr. Gualli apontou para uma mansão cujos muros de tijolos permaneciam quebrados e o portão de metal era torto e caído, como se tivesse passado por uma invasão. Orivundo abriu uma mala que repousava em cima do rapko onde montava anteriormente. O homem de cartola tirou de lá um fígado de Chloetor que não parecia estar muito bem aceso, pois os amassos da viagem lhe deixaram achatado e enrugado demais. Gualli passou a luz azul em sua mão para Lutile e retirou outra da mala.

– Desculpe, Balta – falou Orivundo, mostrando para o tigre apenas alguns sanduíches no interior da maleta.

– Vou ficar bem atrás de vocês. – avisou o felino, quando levantou o pescoço de pêlos brancos. – Mas andem devagar, não podemos ser vistos. O que quer que esteja dentro desse lugar, poderá nos dar dores de cabeça agudas.

Então eles se apressaram para longe dos altos caules das flores e atravessaram uma rua cuja neve se amontoava entre um paralelepípedo e outro.

– Pensando melhor, acho que não é uma boa idéia usarmos nada para iluminar, – disse Gualli quando parou com os passos cautelosos. – poderão nos ver com facilidade.

– Isso se você quiser se esconder – rebateu Lutile. – Viemos aqui para levar a tia de um garoto para casa. Seria curioso se progredíssemos sem lutar.

O cheiro doce que vinha da fábrica ao lado da mansão era de uma mistura forte que chegava ao focinho peludo e causava enjôo instantâneo. As certezas de que achariam Haydee rapidamente aumentavam.

– Sanatório Lanacius – leu o tigre para ele mesmo quando avistou algumas letras desprendidas acima do portão.

– Venham, por aqui parece ser melhor – avisou Lutile, na espreita do muro que dava volta pela mansão. Baltazar e Orivundo o seguiram, carregando em mãos os fígados reluzentes. Eles encontraram escombros sobre a neve, retalhos que pareciam ser originados de explosões. A partir do instante em que colocaram os pés para dentro do jardim funéreo, os passos tornaram-se ainda mais silenciosos.

Por onde olhavam, encontravam árvores negras e robustas, mesmo que sem folhas. Os galhos secos lhes davam impressão de morte a todo o instante. Eles logo se encontraram num pequeno labirinto, onde havia paredes de folhas que chegavam além de suas cabeças. Cada um olhou para um canto e Lutile resolveu andar em direção ao casarão, porém um muro o impedia de continuar.

– Olhe aqui, meu velho, – falou Balta, apontando com a pata para um buraco entre o chão de neve e a parede de folhas. – me soa como uma passagem.

– Ande logo. – disse o senhor de casacão que batia nas panturrilhas agasalhadas.

O tigre sujou o pelo laranja ao passar ligeiro e agachado no buraco, esgueirando-se entre um galho pontudo e outro.

– Está vendo alguma coisa? – sussurrou Lutile, quase encostando a barba no muro.

– Não, nada… apenas… uns… – repentinamente o tigre soltou um rugido e várias bolinhas saíram por onde ele entrou. Elas saltavam e eram castanhas, uma porção delas. O velho caçou uma com a mão e a olhou, encarando as pernas compridas e finas do monstrinho.

– Malditos tzíkers – Gualli balançou a mão, os enxotando. – Cismam em roubar doces dia sim, dia não.

– Nunca vi algo parecido, mas não parecem ser perigosos – disse Lutile enquanto olhava o bicho de orelhas pontudas e maiores que o próprio rosto. Os olhos, bem redondos e esbugalhados, ameaçavam sair do rosto em formato de coração. O velho tacou-o para longe.

– Não são perigosos, mas irritam quando estão em grande quantidade, deixam você confuso com tantos pulos.

– Parem de falar. O caminho é por aqui! – a voz do tigre ecoou do outro lado. Orivundo tratou de aproximar a mão do muro de folhas e fez com que fosse destruído devagar, como cinzas desmoronando. Baltazar apareceu logo adiante.

O trio percorreu um corredor naquele labirinto, encontraram, por sorte, um portão dos fundos, onde esse parecia estar intacto. Quando Orivundo abriu, percebeu que estava destrancado, então colocou a cabeça para dentro e viu um extenso salão com um lustre caído, tapete vermelho e paredes de madeira negra.

– Venham. – ele os chamou com a mão, sem olhar para trás. Apenas o que iluminava o caminho era a luz azul do fígado que segurava. Eles puderam ver destroços para todos os cantos, pedaços do teto que tinha caído e partes do soalho arrancado, como se uma batalha tivesse acontecido ali.

Lutile deixou que Balta passasse sua frente e fechou a porta. Eles olharam para os cantos e viram quadros antigos. Em seguida, um grito ecoou pelo casarão. Eles se entreolharam e puderam ter a certeza de que algo estava acontecendo a alguém naquele exato segundo, e então o tigre sentiu um cheiro forte.

– O quê é? – perguntou Gualli. – Qual doce da Gualeis você sente? Picado de Murana… Baba de Lontra… Delícia Derme…?

– Não falo sobre doces, Orivundo. Esse cheiro me é familiar. A essência vinda da sua fábrica não atrapalha meu olfato, disso eu garanto.

– Então o que está sentindo, Baltazar? – questionou Lutile.

– Haydee. – o tigre olhou o velho.

Passos pesados passaram sobre suas cabeças no andar acima, fazendo a poeira do teto cair. Eram muitas pessoas apressadas e juntas. Mais outro grito foi ouvido.

Eles voltaram a andar, ainda que devagar, e já se encontravam num corredor escuro mas com luzes de tochas no outro cômodo. A luminosidade os alcançava através dos buracos nas paredes, que mais pareciam tocas de monstros selvagens.

Quando mais outros passos correram acima deles e a poeira invadiu o local, Balta teve a certeza de que estavam no caminho certo. Ele seguiu a movimentação adiante.

– Me sigam, Haydee está por aqui. – disse o tigre, e andou mais rápido, farejando o ar. Eles andaram rápido, sorrateiramente, aproveitando o tamanho barulho no andar de cima, porém surgiu alguém na frente deles, então, tiveram que entrar no primeiro buraco que encontraram. Naquele momento esgueiraram-se para um banheiro imundo cujas paredes faltavam azulejos e os vasos estavam caídos. O chão estava cheio de farpas e grandes pedaços de espelhos. Eles precisavam de cautela para que seus passos não denunciassem onde estavam, já que a água gelada da pia invadia seus calçados.

Lutile tirou do casaco um par de máscaras de madeira. Ele pôs uma e a outra ofereceu para Orivundo.

– O quê é isso? – sussurrou o indignado tigre quando viu o sr. Gualli ser presenteado.

– Me desculpe, Balta. Não adiantaria manter sua identidade coberta. Os pêlos e as patas o delatarão. – explicou o velho Lutile.

– Silêncio. Ouçam… – disse o felino quando viu um vulto passar pelos destroços no corredor. O tigre, assim como os outros dois, viu uma criatura aparentemente humana, mas quando a poeira baixou eles puderam ver que não se tratava de uma pessoa. Era um humanóide que tinha patas como as de um dinossauro, três dedos em cada mão que seguravam lanças e um cérebro avantajado para trás da cabeça, onde havia veias bem expostas. Vestia mantos de couro e tinha o corpo coberto por fungos.

Corsariu. – o tigre respirou bem fundo. Teve que deixar o monstro passar para que desse mais um pio. – É a pior espécie que alguém poderia inventar. São capangas de Tertius.

– Como sabe disso? – perguntou sr. Gualli, baixinho e usando a máscara de madeira.

– O pai e a mãe de Thomas já lutaram contra eles. Foi numa batalha dessas em que a pobre Sandra Flintch morreu tentando salvar o filho.

– Então vamos matá-lo? – Orivundo apontou para o grande buraco na parede, onde o corsariu havia acabado de passar.

– Vamos encontrar Haydee primeiro, depois nos resolvemos. – esclareceu Lutile.

Eles olharam para os dois lados e voltaram para o corredor, que logo depois desembocou num outro salão com duas escadarias para o andar acima deles. O tapete estava mais escuro do que eles imaginavam, e levava para cima dos degraus de pedra. Ao redor deles havia mesas e cadeiras amontoadas umas sobre as outras, ao lado de sofás com molas saídas do estofado, jogados como se fossem objetos de qualquer mausoléu.

Da beirada da corrimão pareciam descer outras criaturas apressadas, suas sombras chegavam até os degraus da escada. Lutile sussurrou para que Orivundo enfiasse o dedo no fígado de Chloetor, então ele o fez. Instantaneamente, a aurora azul que os rodeava se apagou e eles viram três outros corsarius contra a luminosidade do segundo andar. As criaturas desceram os degraus e conversavam numa língua diferente, estranha e bizarra até que se discordasse. Suas vozes eram finas e davam dores de cabeça.

Balta puxou as pernas de Lutile e Orivundo para que lhe seguissem. Passos cautelosos foram necessários para que saíssem do caminho dos corsarius e dessem a volta pelo salão, subindo pela escada do outro lado. O sr. Gualli voltou a respirar no momento em que olhou o corredor do segundo andar, era largo e com lâmpadas brancas pelos cantos, algo muito incomum em terras aqualaestes. Eletricidade não era algo que se encontrava todos os dias, mas foram as cabines em si que embasbacaram o gordo bigodudo. Ao contrário do primeiro andar, onde havia quartos nos corredores, a parte de cima era repleta de vitrines estilhaçadas e bem iluminadas. Parecia uma prisão com camas desfeitas sobre rodas e espalhadas, o que os obrigou a desviá-las para passarem.

Não tinha corpo algum, nenhum louco no recinto, apenas lugares vazios, escuros e frios, cujas lembranças não eram as mais atraentes para pessoas de boa índole. O fígado de Chloetor voltou a iluminar-se em azul quando Orivundo retirou o dedo, o que causou sua interrupção, então ele o jogou para um canto e voltou a seguir a única luz na frente, a de Lutile.

Balta farejava Haydee mais perto que antes, eles se aproximavam dela a cada passo, mas logo o tigre obrigou-se a parar. Uma porção de corsarius passaram pela sua frente, seguindo um homem encapuzado de vermelho, que viu o felino e a luz do velho Lutile.

– Intrusos! – a voz do misterioso homem esvaiu de sua capa rubra e fez cada vitrine no corredor explodir. Os cacos e farpas voaram pelos ares.

Baltazar pulou acima das lanças que lhe foram jogadas, desviando-as, e em seguida avançou nos corsarius.

– Deixem-nos comigo! – bradou o velho Lutile, retirando seu casacão e o tacando em direção àquelas criaturas. O tecido tornou-se aborrachado no meio do ar e amarrou os humanóides como um todo.

Orivundo criou uma barreira em volta de si que impediu os vidros de lhe arrancarem pedaços, enquanto o homem de vermelho correu para um dos corredores.

Subindo pela escada atrás do sr. Gualli, vieram outros corsarius, então Lutile esticou seus braços na direção deles e de seus dedos saiu tanto creme marrom que lambuzou os monstros dos pés à cabeça.

– Chocolate – falou o velho, sorrindo pelas beiradas, e logo em seguida as criaturas começaram a gritar com vozes estridentes e a coçar o corpo inteiro. – com pimenta – completou ele.

– Peguem aquele animal! – ouviu-se uma voz que ecoou pelos cantos ao redor deles.

O tigre adentrava um buraco e outro nas paredes, derrubava alguns corsarius e avançava nos que tentavam pegá-lo. Logo se deparou num largo corredor de azulejos feitos de cristais opacos, cujas paredes tinham fileiras de fígados de Chloetor, como se fossem tochas. A luz era azul para todos os lados que Balta pudesse olhar. A primeira coisa que ele pensou foi que era totalmente desnecessário matar tantos animais para retirar aqueles órgãos iluminados. Nem metade daqueles fígados bastava para que alguém pudesse enxergar onde estava pisando. Esses corsarius gostavam mesmo é de matar.

Baltazar continuou a farejar Haydee. Parecia que ela estava perto, era só atravessar o corredor.

No outra sala, o gordo Gualli parou e agachou-se ao lado de vários entulhos de dois metros como pedaços de móveis, atrás de uma pilastra de madeira podre. Ele suava tanto que parecia estar chorando pela testa. Tentou secar a cabeça com o dorso da mão e sentiu os pingos caindo dos poucos fios que tinha na cabeça, a mesma que a cartola não cobria mais. Ele evitou respirar alto, lutou forte contra a respiração ofegante, e logo ouviu os passos agitados de um grupo de corsarius, porém os mesmos foram se distanciando dele. Parecia que estavam indo para a outra extremidade do hospício.

O gordinho, desesperado e cujo coração batia feito tambores em noite de ritual, abaixou lentamente até a bochecha rosa encostar o chão empoeirado. Orivundo pôde ver, através da brecha entre um guarda-roupas e o piso, os pés descalços de um ser de vestes cinzas até os calcanhares. Os dedos eram manchados de sangue velho e escuro, não tinham unhas, eram ossudos e bem mais compridos que dedos humanos. O homem pensou que talvez fossem os pés de um humanoide aqualaeste desconhecido por ele, mas logo achou que seria improvável. Logo ele também viu outros pés se aproximarem daqueles, todavia esses eram parecidos com patas de dinossauro, com garras negras e grossas, enrugados e cascudos.

O sr. Gualli sofria de uma doença chamada Mabironose, a qual causa baixa na pressão, zombidos perfurantes nos ouvidos, falta de ar, dormência nas juntas e visão turva, tudo isso logo quando o medo lhe domina o corpo. Era como receber um choque de mil voltz em meio segundo. O pobre, mas rico, Orivundo, sentiu isso tudo naquele mesmo instante. Sua cara era de quem estava levando golpes de espadas na barriga, mas ele não fez nenhum som, e o máximo que conseguiu ouvir foram ruídos melados de saliva seca estalando ao abrir de bocas e outros ruídos misturados que lembravam o som agudo de um aparelho prestes a explodir. Aquilo pareceu uma conversa entre dois seres que, com certeza, não eram de origem aqualaeste. Então, as patas que lembravam as de um dinossauro correram para longe com intuito de cumprir a ordem do outro.

Orivundo Gualli estava estatelado com a bochecha ainda colada no chão de madeira, apenas os olhinhos se mexiam de um lado para o outro. Ele ouviu um terceiro integrante falando com o ser de vestes cinzas:

– Para onde o mandou?

– Para as celas.

– Devia mandá-los atrás do tigre!

– Vários grupos estão atrás dele. Esse lugar deve ser inteiramente vasculhado.

– E o gordo?

O sr. Gualli prendeu a respiração, sabia que falavam dele.

– Nenhum deles vai sair daqui com vida.

Baltazar já havia atravessado dois cômodos depois do corredor de azulejos de cristais. Ele se locomovia devagar, encostando as patas felinas lentamente no chão que, volta e meia, estalava. Muitas tralhas e escombros atrapalhavam o caminho, mas ele encontrava alguma passagem ou buraco para continuar a procura.

Um cheiro feminino mais acentuado saía de uma rachadura na parede, e, já que o tigre estava encurralado num beco, teve que tentar atravessar. Ele se apoiou no muro de madeira, prensando as duas patas dianteiras como se estivesse cavando. As afiadas garras criavam brechas na parede, e lascas se juntaram perto do rodapé. Logo ele teve que parar e se recolher no canto escuro do cômodo, já que a poeira do andar de cima começou a cair sobre seu focinho. Era um grupo de criaturas sinistras que estava bem atrás dele. Quando passou, o tigre apontou o rabo para aquela mesma parede e a madeira se desmontou. Assim como os humanos usam os poderes com os dedos, ele usava também com o rabo. A outra sala era, com certeza, onde Haydee estava.

Na outra parte do Sanatório Lanacius, Orivundo continuava encolhido como um feto atrás da pilha de móveis que havia encontrado. Lutile apareceu do seu lado, também agachado, e o encostou. O susto do sr. Gualli foi tanto que até a papa tremeu.

– Sou eu. – o velho gesticulou sem soltar som algum, apenas a boca muda formulando bem as palavras. – Não faça nenhum barulho.

Eles, então, olharam para os lados e tiveram a certeza de que ninguém mais estava lá. Foram andando devagarinho por uma sala e chegaram aonde parecia ser a cozinha. A porta não estava mais lá, se encontrava quebrada em alguns passos dali no chão de pedra. Havia panela para tudo o que era lado, inclusive muitas delas presas nas paredes. As bancadas eram quadradas, altas e de pedras marinhas, as quais eram as melhores para cozinhar, porém estava tudo fora do lugar. Os armários estavam abertos e vazios.

Dos buracos no teto começaram a cair lagartas brancas e transparentes do tamanho de braços humanos. De dentro das panelas elas saíam, agitadas e fofas, cheias de pressa para fugir de qualquer tipo de movimentação. Tinham, no final do corpo, uma espécie de fita lisa que mais parecia uma língua babosa e brilhosa. Lutile e Orivundo se coçavam ao apenas verem aqueles seres asquerosos rastejando pelas bancadas. Muitas delas caíam no chão e faziam algum barulho, outras paravam de se locomover para ficarem olhando eles passarem devagar, com dois pares de olhos pretos, duas antenas fluorescentes em cima e uma boca humana sem dentes.

Os homens continuavam a andar, fingindo não se importarem com aquelas criaturas grotescas que pareciam querer se alimentar deles. Uma delas se contorceu no piso podre e soltou pela boca alguns peixinhos ainda vivos, que nadaram rápido pelo ar para longe dali. Quando esses animais alcançaram o máximo da nojeira, os que estavam rastejando nas bancadas fizeram crescer patas finas e peludas como as de aranha. Elas se esticaram e chegaram a ser tão altas quanto Lutile. Uma panela caiu na bancada. O barulho foi tanto que essas lagartas se encolheram e vários tzíkers saltitaram para fora do armário, pulando pela janela com gargalhadas. Naquele mesmo instante Lutile e Orivundo pararam com o susto. Uma fileira de estilhaços amarelos atravessou a parede e, por pouco, não arrancou o braço do sr. Gualli. Desesperado, ele caiu sentado no chão.

Outros corsarius atacaram em massa ao velho, porém ele conseguiu desviar todas as lanças e adagas de areia, assim como os raios amarelos que ousavam matar também as lagartas gigantes.

Longe deles, o tigre Baltazar desvendava cada canto daquele lugar, mas logo ele soube que a espera e a luta iriam acabar, e eles partiriam para o Instituto Flintch. O felino finalmente estava longe, atrás de uma estante perfurada, e de lá ele podia avistar, através de um pequeno buraco na gaveta, o corpo de Haydee erguido no ar com a ajuda de cordas. Ela estava cercada de corsarius, por volta de uns trinta. Baltazar percebeu, então, que alguns foram se aglomerando perto de uma porta e foram esquecendo a mulher. A confusão na cozinha que envolvia Lutile e Orivundo havia atiçado a curiosidade daqueles guardas carniceiros. A situação começou a se agravar para os dois, contudo o caminho do tigre se abriu.

Sem falar nada, ele se aproximou da mulher que estava de cabeça para baixo. O rosto que era tão delicado estava arruinado. Havia cortes na pele que não cicatrizaram e os dois olhos estavam tão inchados que ela nem conseguiria abrí-los se tentasse.

Baltazar chegou a lacrimejar naquele momento, mas ele tinha que tirá-la logo de lá. Não era hora para se emocionar. O tigre apertou bem os olhos, e, com o rabo apontado para a corda, conseguiu fazê-la se romper. O corpo da mulher flutuou até acomodar-se no pelo laranja do animal, e, na sua garupa, ficou como um boneco de pano.

Antes que alguma criatura daquelas pudesse olhar para trás e tomar falta de Haydee, o tigre já estava no outro cômodo. A mulher havia caído no chão e seu corpo rolou. No vestido não houve muita diferença, já que, desde muito tempo, a cor do tecido não era mais branca, e sim marrom.

A agitação na outra sala e no resto do Sanatório Lanacius era incrivelmente estarrecedora. A luta devia estar de matar! Por esse motivo, Balta teve a sensação de esquecimento dos corsarius. Tentou não ficar nervoso ao sair de lá, e deixou que Haydee se levantasse sozinha, sem pressa. Ela se apoiou na parede até conseguir se esticar bem, porém as pernas tremiam como cordas frouxas de violão. Quando a mulher se virou para o tigre, os olhos felinos se molharam com mais lágrimas ao vê-la. Ela, por outro lado, não conseguia enxergar muito bem por conta do inchaço instalado em seu rosto há muitos ciclos menai, contudo Haydee não precisou ver nada, ela logo sentiu que estava com um amigo.

Lutile, carregando Gualli, entrou pela porta e estraçalhou tudo o que havia em sua frente com um simples gesto, e o caminho foi liberado para que pudesse passar com Orivundo.

– Vamos embora! – ele gritou ao encontrar o tigre.

Naquele mesmo segundo, a parede inteira que Haydee se apoiava quebrou em vários pedaços. Um gigante musculoso que usava roupa de espinhos agarrou a mulher pela cintura e a segurou no ar. O chão se quebrou e todos estavam prestes a desabar para o andar de baixo. A mulher não tinha forças para gritar, a mão do gigante a apertava tão forte que o intuito era realmente aniquilar.

Aquele enorme monstro era nada mais, nada menos que um dos corsarius, com a exeção de ser bem desenvolvido e, aparentemente, mais evoluído que os outros. Tinha um pescoço grosso, o nariz invertido com as narinas para cima, dois olhos caídos e bem escondidos pela sobrancelha caída e pelada. O peso de um crânio avantajado e quebrado internamente o fazia ter uma espécie de coroa de pedra, que, na verdade, eram os ossos saindo para a direita. Ele era torto para o mesmo lado.

Haydee sabia que não conseguiria, mas tentou, por um segundo ou dois, se livrar da mão do monstro de seis metros de altura. Ela não se importou em ter que tocar na pele verde escura e fria, que parecia estar morta há muito tempo.

Quando os corsarius apareceram na porta, Lutile esticou bem o braço e segurou Orivundo pela cintura. Eles teriam que pular o vão que estava distanciando-os do tigre e do gigante. Gualli gemia de dor. O braço do paletó, coberto de sangue, pingava incessantemente. No momento em que pularam, o tigre ajudou Haydee a fugir com eles. Balta jogou estacas de madeira na musculosa barriga do gigante. Elas entraram e ele pareceu fraquejar, mas ainda segurava firme o corpo da mulher.

O felino de pelos alaranjados flutuou cada canto do cômodo escuro, e, ao redor do maior corsariu de todos, ele voou. Como o bicho era realmente muito grande, Balta percebeu que ele também era corpulento. O tigre aproveitou os ataques e fez o gigante quebrar as outras paredes. Os pedaços caíam sobre Lutile e Orivundo, que estavam próximos às patas de dinossauro feridas do monstro. O velho, junto a Gualli, impedia que os jatos de areia cortantes dos corsarius, do outro lado, não os atingissem. Ele fez um escudo translúcido na frente deles. Cada grão que tentava atingí-los se tranformava em chocolate derretido e escorria para a fenda no chão, que ainda se abria.

Aqueles seres de Meon pararam de atacar e, um deles, que estava a frente dos outros, lhes falou algo em outra língua. Nem mesmo foi dito com o mexer dos lábios, mas sim com a boca aberta e um tipo de gargarejar diferente. Provavelmente um tipo de comunicação já bem conhecida por eles. Logo depois se retiraram, o que deixou Lutile e Orivundo intrigados.

O piso se quebrava mais a cada passo do gigante. Ele, com Haydee na mão, sentiu zonzeira e pareceu estar sem controle. Nenhum dos tapas que deu no ar acertou o tigre, mas ao menos a parede para fora do hospício ele conseguiu destruir. Foi a brecha para eles poderem fugir. Mas e Haydee?

Baltazar confundiu o gigante até fazê-lo ficar de costas para o jardim. Eles estavam a alguns metros de altura, então o felino cravou os caninos no pescoço do monstro e o empurrou com as patas para trás. Quando o grande corsariu começou a cair de costas, o próprio tigre, com o poder do seu rabo, fez com que Haydee não caísse com ele, puxando a mão do gigante para perto sem ao menos tocá-la.

Com a mordida no pescoço, o monstro já estaria morto, então foi fácil abrir a mão dele e soltar a mulher naquele mesmo cômodo, com o enorme braço servindo como caminho para que ela, Orivundo e Lutile pudessem descer até o jardim.

– Vamos! Depressa, segure no meu ombro. – o velho se ofereceu como apoio para que o gordinho pudesse subir no dorso da mão gigante.

Foi somente o tigre dar falta de Haydee, que ela já estava adiantada e descendo os enormes espinhos entranhados no braço do corsariu morto, como se fosse uma escada. Como era possível, depois de todos esses anos de sofrimento e dor, ela ainda ter forças para descer alguns metros de altura sem se cortar nos espinhos?

Balta logo viu que a dor que ela sentia era muito mais profunda, na pele só havia ferimentos. As dores estavam escondidas aonde ninguém podia ver, e um machucado a mais não faria diferença.

O jardim onde eles desceram era diferente daquele que aterrorizava a entrada, era um simples gramado de fundo feito de plantas altas até os calcanhares. Quando Lutile também desceu o corpo do gigante, Orivundo disse que não precisava de ajuda, ele faria tudo sozinho.

– Não parem – o tigre falou, com as patas já na grama. Ele olhou para Haydee e, sem falar mais nada, se aproximou, fazendo o braço da mulher coçar, como sinal para que ela subisse nele. Ela o fez com dificuldade, mas não demorou para por uma perna de cada lado e cair em repouso na garupa do animal. Fazia muitos anos que ela não encontrava uma posição tão confortável como aquela, foi como chegar ao êxtase, e, por um momento, ela entrou num estado de ausência total de sofrimento. Mais do que tudo, ela estava protegida.

Os zarmos de Lutile e do sr. Gualli chegaram correndo como avestruzes, com a exceção das asas dando apoio para mais velocidade, como o andar de gorilas. Quando os dois se preparavam para subir, avistaram uma torre do Sanatório Lanacius colidindo com a outra, e, naquela hora, uma crise de azar os abalaria ainda mais. A outra torre desabava sobre eles.

Era hora de voar. Eles não estavam preocupados com as novas leis. Foi ridícula a hipótese em até se pensar nisso, pois era vida ou morte, porém os zarmos não alçavam voo.

– Eles estão feridos! – gritou Orivundo, montado no animal. Uma mão apertava o braço molhado de sangue, e a outra segurava as penas da asa que possuía cortes.

– Foi uma armadilha! – constatou Lutile.

Eles correram para os lados e se distanciaram dali, mas quando a torre alcançou a terra, os pedaços de madeira espatifaram-se para tudo o que era lado.

Gualli espiou os destroços que se amontoavam atrás deles, enquanto a ave que montava corria mais veloz do que nunca. O homem também viu uma grande parte da fábrica Gualeis destruída.

– Ah, não! – instantâneamente o sr. Gualli começou a chorar. – Meu império! – as lágrimas desabaram.

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