Capítulo 4 – O bobo da corte.

“Mitos e lendas são que nem palavras, são ditos a todo o momento, mas somente impactam às mentes que se deixam impactar.” – Duravoìw Hentgle, empresário longaminiano.

ANTES DE SAIR DO CASTELO, Laura pediu a Thomas que ele orasse. Phoerios com certeza ouviria a prece, afinal ele poderia ajudar o garoto. Debruçado na janela do quarto, o menino conversava com o deus de Aquala.

Nunca nos falamos, não é? Acho que não mereço que me ajudem a conseguir reunir minha família mais uma vez, mas eu peço que o senhor me ajude a atingir esse meu objetivo.

         Depois que eu descobri que meu pai estava em perigo na Terra, eu sinto que não levantei um dedo sequer para trazer ele para Aquala, mesmo sendo meu desesperado e maior desejo. Passei o inverno todo somente pensando nele e tudo estava acontecendo tão devagar que eu achei que minha tristeza não fosse passar nunca.

         No próximo ciclo menai nós mudaremos de estação aqui em Aquala e espero que, com ela, venha boas novidades. Não será primavera nem verão, mas sim a ejámule, a estação ciclal que todos falam ser a melhor de todas, onde as águas do centro do planeta são jorradas para a superfície. Espero ver maravilhas por aqui.

         Lutile, o sr. Gualli e o Balta irão salvar Haydee. Ajudando-os, também estará me ajudando. Obrigado por me ouvir.

Uma cara de cavalo marinho entrou pela janela e lambeu o rosto do garoto. Era Corsena, a égua alada de Thomas que estava no jardim do lado de fora.

– Ei, garota… – ele passava a mão gelada nos filamentos da cabeça da égua e no focinho comprido e fino. Ele tirou debaixo do casaco um apito estranho pendurado num cordão. – Quando eu precisar eu sei que vou poder contar com você.

Thomas mandou que Corsena voasse para o céu, junto aos peixes que lá passavam, pois ele não saberia se era arriscado ela ser vista voando em Longamínis, já que Blestor Gukpuk havia criado a Lei Voarte.

Era hora de entrar na carruagem do sr. Gualli e ir para a província de Émi’Lian, onde se localizava o Instituto Flintch.

Pela estrada de neve eles sacolejavam, os peixes que puxavam a carruagem não tinham idéia do quanto as rodas de metal bem feitas sacudiam os meninos do lado de dentro. Mais inteligente e maiores que as outras espécies, esses peixes azul turquesa receberam um olhar um tanto importante do sr. Gualli antes de partirem. Ele fixou suas pupilas nos olhos dos peixes e tocou seu dedo indicador nas nadadeiras de cada um. A partir daquele momento eles sabiam o que deviam fazer e qual caminho tomar. O papel do cocheiro era somente fazer com o que os animais nadassem mais rápido. Era um arrogante e pobre homem que jogava um poder de seus dedos nos peixes, um bafo quente quase em chamas.

– Foi ótimo seu pai nos emprestar sua carruagem pessoal. Não teria outra maneira de chegarmos até o Instituto se não por terra firme – agradeceu Thomas, com o braço estendido para o lado de fora da janela enquanto eles sacudiam. – Acho que não o agradeci o bastante.

– Não precisa agradecer – falou Ophelia, sentada entre Felipe e Guido, de frente à Thomas. As tranças da menina gordinha estavam para cima e lembravam dois chifres. – Meu pai não usa essa carruagem para nada, só para ir às Corridas Zarminianas. Esse cocheiro, Frederico, ganha o salário pra não fazer muita coisa.

– Não gosta dele? – perguntou Felipe. – Ele me pareceu um tanto gentil.

– GENTIL? – Ophelia retrucou bem alto, e logo tratou de baixar o tom, ela não queria que o cocheiro a ouvisse. – Gentil? Ele é o homem mais grosseiro que eu já conheci, e aposto como será o mais grosseiro que vocês também conhecerão.

– Conviveremos um bom tempo com ele, Ophelia. Terá que aceitar seu humor – avisou Nadjo. – São centenas de quilômetros até chegarmos, passaremos por alguns povoados para dormirmos.

– Nadjo, obrigado por vir conosco – agradeceu Thomas com um sorriso. – Não sei nem como você acabou entrando nessa história conosco. Quero dizer, está sendo ótimo ter todos vocês por perto, mas não fiz nada em troca para que viessem comigo.

– Meus pais são bastante religiosos, Thom – explicou o garoto. – Com a descoberta de que você é o descendente de Phoerios e com toda essa história da sua família em apuros, eles decidiram me convencer a vir com você para ajudar caso aconteça alguma coisa. Meus pais acham que, eu estando em sua companhia, estarei mais perto de Phoerios.

– Por quê esse interesse todo com o nosso deus? – perguntou Sofia. – Seus pais sendo religiosos já não traz alguma coisa boa e divina para vocês? Eles tiveram que mandar você para cá por quê? Você tem pecados?

– Sofia! – Laura a repreendeu.

– Eu vim porque quis – respondeu o garoto, mostrando timidez. – Eles só me aconselharam não pelos meus pecados, mas sim pra atrair forças divinas para nossa família, mesmo eu nem sendo religioso como eles. Na verdade eu nem sou religioso, acredito nos deuses e só, não preciso ficar demonstrando nada a ninguém. Eu me resolvo sozinho com Phoerios.

– Acho que temos um Frederico aqui dentro também, Ophelia!

Felipe deu uma bela de uma cotovelada no braço de Sofia para que ela parasse de falar.

– Só estou explicando – disse Nadjo. – Se fui rude não foi proposital.

Os únicos calados eram a sra. Guinard e Guido. Rosana não prestava a mínima atenção no falatório que acontecia dentro da carruagem. Ela, como mãe, temia que algo ocorresse a Felipe, e esse foi um dos motivos que a levaram a acompanhar os garotos até o Instituto Flintch. A mulher passou boa parte do tempo com a cabeça na janela, o que se passava lá fora estava mais interessante que a discussão lá dentro.

Os olhos intimidados de Rosana Guinard não despregavam da legião de Protetores que se espalharam entre as árvores e corais na neve.

– Vocês tem que ver isso – ela deu espaço para os meninos verem o que seus olhos afrontavam. Havia barracames montados e espalhados entre as raízes que eram tão enormes quanto tentáculos de um Kraken. Eles avistaram mais Protetores vestindo capa negra e elmo com espinhos em cima de três ganestros, que eram animais com mais de cinco metros de altura e compridos. Chegavam a montar tendas nas costas dos bichos, cujo corpo era coberto por pêlos, tinha patas parecidas com as de ganso e um bico verde torto para baixo. Mas não era em cima de ganestros que os Protetores vigiavam as florestas, o faziam bem em cima de lulas colossais que nadavam horizontalmente acima dos galhos congelados das árvores. As mesmas tinham oito braços fortíssimos e dois tentáculos com ventosas e ganchos.

– Essas lulas são de arrepiar – comentou Laura. – Me pergunto como esses Protetores conseguiram domar animais com esse tamanho, são maiores que a torre mais alta do Castella Hondeias.

Naquele mesmo instante Ralphum Baltazar corria com Lutile montado em suas costas para o lado inverso ao dos meninos. O lugar era mais parecido com uma savana africana e tinha alguns troncos de árvores espalhados pela terra coberta por neve. A grama alta da outra estação ainda permanecia firme e forte mesmo com o gelo do inverno, e isso dava para ver pelas plantas verdes que eram encontradas pelo caminho.

Orivundo Gualli acompanhava o tigre e o velho em cima de um rapko. A cartola era bem presa na cabeça para que não voasse com o vento forte que batia no rosto, causado pela velocidade que corria ao lado de Balta e Lutile. A montaria do sr. Gualli tinha três metros, patas grandes com quatro garras afiadíssimas que cravavam no chão embaixo da neve, e um focinho parecido com o de uma foca, com a exceção da língua comprida e babosa. Tinha excesso de pele da parte da barriga e nenhum pêlo no corpo.

Orivundo era o único que sabia como chegar na fábrica Gualeis, afinal ele era o dono. As aulas de montaria lhes foi útil durante a juventude. O homem era um fã nato de Corridas Zaminianas, assistia a todas, e isso lhe serviu como impulso para aprender a correr tanto em cima de uma ave quanto em rapkos.

Eles percorreram quilômetros durante horas, não sabiam que o tamanho de Longamínis era tão absurdo. Bebiam água quando um rio lhes fechava o caminho. Chegaram a passar pelos famosos Arcos Jeverruntes, jatos de águas verdes que saíam da terra e eram jorradas para o lado como uma fonte, contudo estavam congelados. Sr. Gualli não tinha reparado que o frio havia parado as gotas separadas no ar, como se não houvesse gravidade. Não se precisava de outro motivo para que os Arcos fossem famosos.

Enquanto corriam, Orivundo explicou a Balta e Lutile que a distância do Castella Hondeias até sua fábrica era duas vezes maior que a distância entre o castelo e o Instituto Flintch, pelo que mostrava no mapa que ele guardava no bolso do casaco. Como sua carruagem não era tão rápida quanto o tigre e o rapko, eles provavelmente chegariam um pouco depois dos garotos, já que teriam que buscar Haydee e ainda ir para a província de Émi’Lian encontrar Thomas.

A neve começou a cair no meio da tarde, escurecendo o tempo. Balta havia parado algumas vezes para descansar, era muito difícil ter que carregar alguém nas costas por mais de duas horas sem parar, principalmente quando Lutile não conseguia se equilibrar muito bem em cima do tigre.

Mesmo com a neve caindo devagar, Lutile conseguia encontrar amanduyectu perto de algumas anêmonas. Era uma fruta laranja que se destacava no chão branco, por ter pequenos tentáculos ao seu redor. O velho tirou duas delas do tronco de uma amanduyceira altíssima, era a maior das árvores naquela região, mas só era diferente pelo tamanho. Lutile dividiu as frutas com Orivundo. Eles as apertavam e bebiam seu suco gelado, mas o gel que elas tinham no meio, havia se tornado gelo com um gosto horrível de gordura, embora esse mesmo gel no verão tivesse um sabor irresistível de morango com limão.

Ainda estava de tarde quando eles avistaram luzes acesas num povoado não muito longe dali, Balta os chamou a atenção. Um mar de gelo os separava do lugarejo, havia árvores cujos troncos estavam metade imersos na água congelada e a outra metade com os galhos balançando numa brisa leve e calma. Estava decidido que eles passariam a noite num daqueles casebres.

A cocheiro do sr. Gualli teve sorte em também encontrar um lugar onde passar a noite, no mesmo hotel velho que os meninos. Quando Thomas percebeu, já havia se passado algumas horas desde sua partida do Castella Hondeias. O garoto acordou todo encolhido em seu assento na carruagem, coberto até às orelhas por causa do frio. Ele reparou que a tocha no lado de fora estava apagada, e naquele momento uma faísca saiu de seus dedos. Em alguns estalos, uma água quente saiu de seu dedo indicador, e aquele líquido pegou fogo, mesmo sendo molhado. Dessa forma a tocha foi acesa quando essa água a tocou.

Thomas olhou para o dorso da sua mão e reparou que usava uma luva incomum, a mesma que veio de presente junto com a égua Corsena e o apito no cordão. A pedra Kespentate cravada no couro não era sinônimo de força, mas aquela peça criada pelo deus Dwinler cabia perfeitamente na mão do garoto, o que poderia explicar como a luva e ele se davam tão bem. Thomas era um menino muito poderoso para a idade que tinha, mas quando usava aquela luva, ele sentia a sensação de conseguir realizar qualquer coisa que quisesse. Não era a realidade, de fato, mas era o que ele sentia.

Os olhos amendoados do mais novo Flintch logo se depararam com um belo rosto cuja aparência era totalmente desligada daquele planeta. Laura vivia no mundo dos sonhos naquele momento. Seu nariz fino e arrebitado estava frio e vermelho, porém Thomas levou sua mão até o rosto pálido da menina. O calor que criava faíscas na palma do garoto logo fez com que Laura ganhasse de volta a cor que ela teve no verão, chegando a suspirar. Thomas não voltou mais a dormir, ele preferia que ela tivesse uma noite melhor.

A carruagem parou alguns instantes depois e um feixe de luz iluminou a madeira da janela onde o garoto estava, então ele ouviu uma conversa do lado de fora.

– Vocês tem um celeiro? – disse um homem, provavelmente o cocheiro, num tom pouco ríspido e rude.

– Não senhor, mas temos um lugar onde os peixes poderão descansar com a carruagem – então Thomas ouviu uma mulher responder com uma voz forte. – Só traga o seu senhor para dentro, mandarei a arrumadeira levar seus pertences para os quartos.

Frederico pisou na neve e abriu a porta da carruagem sem medo de fazer barulho, falando como se não tivesse ninguém dormindo.

– Saia daí garoto – o cocheiro usava um casacão que aparentemente não era seu, pois a bainha arrastava na neve. Tinha barba e bigodes grandes e uma aparência de bêbado. – Consegue trazê-los para dentro?

– Consigo levitá-los, mas eu acho melhor acordá-los – sugeriu Thomas. Logo o garoto começou sacudindo Laura delicadamente quando Frederico gritou.

– ACORDEM! TODOS PRA DENTRO! JÁ!

Alguns pulos fizeram a carruagem sacudir. Ophelia abriu os olhos num susto e quase voou no pescoço do cocheiro, pronta para matá-lo.

– Quando meu pai está aqui eu não ouço vozes altas – ela comentou, esperando que Frederico respondesse, mas ele somente riu ironicamente.

Sonolentos no frio e com pés na neve, Felipe, Sofia, Ophelia, Nadjo e Guido andaram depressa para dentro do alojamento, onde parecia estar quente e cheio de música. Os flocos de gelo não caíam mais, vagavam no ar como poeira branca na noite. Laura, ao descer o degrau da carruagem, olhou para Thomas e estendeu a mão.

– Estou com frio – ela falou pra ele. O garoto somente sorriu e agarrou sua mão.

Rosana desceu em seguida e olhou com desprezo para o cocheiro. Encarando-o bem nos olhos, ela confessou:

– O senhor é um estúpido. Seu canastrão! – a sra. Guinard lhe deu um tapa e entrou no alojamento. Um cobertor de lã saiu voando da carruagem como se somente uma cabeça flutuante estivesse sob os panos. Era o potuco Luka, que saiu debaixo da coberta e deu também um tapinha em Frederico, que apenas fez balançar a bochecha barbada do homem.

Thomas, antes de entrar, viu a mulher que conversou com o cocheiro. Ela era bem diferente do que ele pôde imaginar em alguns segundos.

– Bem vindos ao hotel e bar Yerlek. Sou a manleira Crintyk Yerlek. Meu pai é dono daqui – falou ela. Era uma cervuni, uma raça que tinha uma bolota atrás da cabeça e duas antenas caídas, uma na frente de cada orelha pontuda. Thomas se apresentou e logo reparou que Crintyk usava um lenço na cabeça para esconder os fungos na pele, davam a aparência de criar buracos exatamente como os existentes no solo da Lua. A pele da cervuni era verde aspargo e tinha dois braços com duas mãos em cada um, e três dedos em cada mão. A boca era pequena e quase no queixo, tendo dentes parecidos com fibras como as de vassouras.

Eles entraram loucos por comida e água quente, e lá encontraram. O hotel Yerlek tinha um ótimo sistema de aquecimento de água, eficaz e estranho. Crintyk explicou a Thomas e a Laura que uma outra cervuni na cozinha conseguia ferver a água gelada através de um filtro no corpo. Ela tocava um dos dedos na panela e a água passava por dentro dela até sair quente no outro braço.

– Arbinelo Treki inventou esse poder – disse Laura a Thomas. – É através da transfusão ulnar.

– Como, minha querida? – falou a cervuni, com a aparência cansada e ainda tentando sorrir.

– Não é nada, só um comentário.

As outras empregadas humanas traziam as malas e tentavam fugir das mãos dos clientes com o mesmo perfil de Frederico: arrogantes, bêbados e atrevidos. Uma outra manleira levou a carruagem até um portão duplo, puxando os peixes pelas rédeas, e no momento em que ela o abriu, uma onda de água quente e bem transparente ameaçou sair. Era uma barreira de três metros de água onde os peixes adentraram, levando consigo a carruagem. Lá era o lugar perfeito para aqueles seres marinhos passarem a noite.

– Vocês estão com fome? – a carismática Crintyk perguntou, entrando para trás de uma bancada, onde pegou um copo com uma de suas antenas e uma garrafa velha e escura. Despejou o conteúdo líquido no copo e o jogou na mesa para que bebessem. – Para jovens eu só ofereço sucos. Esse é especial da minha cozinha, eu o chamo de gosma fugitiva.

Thomas e Laura olharam para o líquido melequento que criava braços para tentar fugir de dentro do copo.

– Obrigado, mas eu vou ter que recusar – o garoto o segurou e devolveu para a cervuni, porém logo a gosma fugitiva tentou pegar seus dedos. – Nós agradeceríamos se apenas trouxesse um prato de comida. Passamos mais de três horas na carruagem e estamos cansadíssimos.

Uma senhora cantava ópera numa mesa com alguns homens, um deles thonze, e tocavam instrumentos ocos feitos de madeira e outros com cordas.

– Cala a boca, mulher! – um senhor bêbado gritou para a esposa.

– Não grita com sua esposa, Glohuval! Ela já subiu para o quarto, não está mais aqui embaixo! – respondeu Crintyk, no mesmo tom de voz para defender a amiga.

– Desculpe pela bagunça e pela gritaria, querido – disse ela ao sorrir para Thomas. – Vou levar a comida nos quartos, podem subir.

Quando Laura deu o primeiro passo e pisou no degrau, um ser voador passou bem veloz entre suas cabeças.

– Meydana, volte aqui! – berrou Crintyk, e passou a frente de Laura. – Desculpe querida, o garoto amigo de vocês, o de cachinhos, tem um potuco, não tem?

– Felipe? – falou Thomas, olhando para Laura.

– É que Meydana está no cio. Está me dando muito trabalho essa potuca, toda vez que um macho da espécie dela chega acompanhando o dono, ela não o larga – explicou Crintyk e voltou a correr atrás da mascote.

Enquanto subiam o primeiro lance de escadas, eles olharam para cima, com esperança de ver o teto perto deles, mas não. O hotel Yerlek tinha onze andares e era bem estreito. As paredes eram feitas de madeira corrida e parecia ser uma construção mal acabada, cujas paredes eram tortas. O chão do segundo, terceiro e quarto andares era feito de um pano elástico bem resistente, e nas paredes de madeira havia estante onde se podia guardar roupas e retratos. Quando Thomas passou por baixo do segundo andar, teve a sensação de que o aqualaeste maluco que se hospedava lá queria destruir o lugar, já que o homem pulava no chão e quase encostava as nádegas em sua cabeça.

– Cuidado com a cabeça, Laura – o garoto andou entre um lance e outro de escadas com as mãos para cima.

– Tudo aqui parece remendado – comentou a garota. – Melhor andarmos devagar para que esse piso não quebre.

Eles subiram até o décimo primeiro andar, o último. Lá tinha apenas um quarto, porém era o maior do alojamento. Qualquer passo que se dava era motivo para pânico, e quando eles bateram a porta, viram que o chão era duro e não de elástico como o dos primeiros andares.

– A música está muito alta lá embaixo, não está? Creio que nenhum de nós conseguirá dormir…

Thomas olhou para o quarto e as malas estavam jogadas no chão. Felipe, Sofia, Nadjo, Ophelia e Guido estavam caídos de boca aberta nas camas. O som era de grunhidos de porcos por todo o andar, os garotos estavam roncando já em sono profundo. A sra. Guinard caía para o lado dormindo na poltrona, onde também já falava sozinha.

– Como eles podem ter dormido num piscar de olhos?

– Estou prestes a descobrir – bocejou Laura. – Tem um lugar para a gente perto da janela.

A menina andou até a cama com passos silenciosos na ponta dos pés e deitou com a roupa que estava no corpo, mesmo os casacos que vestia lhe prendendo os movimentos. Thomas aumentou o aquecedor de metal cilíndrico que permanecia no meio do quarto, e depois foi se deitar.

– Está com sono? – ele perguntou à Laura. Ela respondeu de olhos já fechados que sim, numa voz exausta e baixinha.

– Posso me deitar com você? – o garoto voltou a sentar, só que mais perto da janela. A menina não disse nada, somente deitou suas costas no colo dele. Thomas suspirou e soube naquele momento que seu coração estava batendo muito mais forte que de costume, foi naquela hora que ele descobriu seus sentimentos reais por Laura, ele a amava. O garoto não ousou se mover e apenas deitou a cabeça no parapeito da janela bem fechada, enquanto os flocos de neve vagavam no ar lá fora.

Crintyk deu algumas batidinhas no quarto e abriu a velha porta. A cervuni segurava quatro bandejas de madeira com sopas de língua de Chloetor ferventes nos pratos. Contudo nenhuma manifestação ocorreu, o que lhe fez acreditar que já estavam todos dormindo, e realmente estavam. O potuco de Felipe voava, fugindo de Meydana, pois era claro que Luka não queria nada com ela, era ainda um bebê. Crintyk a chamou a atenção com a voz baixa.

– Venha já para baixo, não quero você correndo atrás de homem.

A potuca da mulher flutuou para perto dela de cabeça baixa, deixando Luka livre para descansar no escuro. Meydana tinha seu corpinho marrom claro de trinta centímetros e usava um vestidinho de pano leve e remendado. Era uma graça de potuca. Elas desceram de novo para a farra com dança e música no bar do primeiro andar.

A cabeça alongada da égua Corsena bateu na janela do lado de fora, assustando Thomas. Ele teve uma rápida reação e se tremeu todo, mas logo tratou-se em se acalmar, não queria que a garota que dormia no seu colo acordasse.

– O que você quer? – ele sussurrou para a égua. – Quase me matou do coração.

Corsena lambia o vidro e batia o focinho de cavalo marinho. Melecava e sujava a janela.

– Quer entrar? Só se não fizer barulho – o garoto fez a janela abrir nem ao menos encostando nela. – Você deve estar com frio.

A égua batia as asas do lado de fora para continuar com a cabeça no quarto, mas quando Thomas abriu a janela e o ar gelado entrou, Corsena não hesitou em pular para dentro. Ela hesitou galopou para não fazer barulho, pois o que seu mestre pedia ela fazia, era inteligente demais. As patas do animal encostaram no soalho e ela logo deitou, mas não deixou de pedir ao dono que lhe coçasse a crina com filamentos. Luka flutuou em cima da égua e a fez de cama.

No meio da noite algo bem misterioso aconteceu, a música não tocava mais. Estava quase na hora de todos acordarem mas o céu ainda estava escuro, pelo menos a maior parte dele. Os olhos de Thomas estavam no claro, uma luz bem forte que ora era branca ora vermelha.

O garoto ouviu o som de sininhos, um barulho que lembrava a infância de todos menos a dele, o barulho de que Papai Noel havia chegado. Contudo aquele som não era melódico e alegre, era depressivo, sofrido e isolado. Macabro era a palavra que mais conseguia definir aquele sino. Parecia vir só da cabeça dele, mas estava enganado.

– Que barulho é esse? – Guido levantou da sombra, mais assustado que o normal.

– Eu estava ouvindo, mas já parou de tocar – sussurrou Thomas, olhando para o garoto e preocupado que Laura acordasse.

– Ouça – falou Guido, pedindo que Thomas também tentasse. – Faz um esforço. Olha… ouviu? Está muito longe.

No bar, Crintyk mexia a sopa numa grande panela erguida sobre as chamas altas da lareira.

– Crin… Crin… uma cervuni que trabalhava no bar chamou a atenção da ocupada chefe.

– O que houve? – berrou a manleira com uma colher de pau na mão. – Por quê a música parou? Estou mexendo a sopa, senão os pedaços vão queimar e ficar duros.

Não precisou mais que ninguém a chamasse para que percebesse que havia algo fora do normal acontecendo.

– Quero mais bebida! Me sirvam mais, eu to pagando! – gritou o cocheiro Frederico, batendo o copo na mesa.

Houve uma confusão de arrastar cadeira para cá e para lá. Conversinhas entre os músicos e suas mulheres.

– O que está acontecendo?

– Você está ouvindo?

– Vários deles por toda parte.

– Não consigo…

Quando Crintyk berrou:

– Calem a boca! Ouçam…

Glohuval levantou e andou cambaleando para perto da esposa.

– Fique quieto Glohuval!

O homem parou e sentou na cadeira com cara de aflição.

– Crin, olhe para a porta, está vendo? – a cervuni do bar apontou para a parede feita de madeira antiga, as luzes vermelhas e brancas transpassavam para dentro do bar. Os feixes entravam através de cada buraco na parede mal construída, piscavam e iam embora.

– Ouçam… – Crintyk falava para ela mesma. – Ouçam o sino.

A magricela esposa de Glohuval começou a gritar inesperademente. O marido andou em direção a ela e a fitou com espanto, estavam em pé e a mulher apertava bem os punhos, a expressão no seu rosto era de sofrimento. Na cabeça dela o som não era mais de sinos e se assemelhou mais ao barulho de vários guizos. Ela os ouvia bem de perto, como se estivessem a um sopro de sua orelha.

A esposa de Glohuval logo voltou ao normal, mas com as mãos na cabeça. As fisgadas que ela recebia no cérebro a davam náuseas, e foi aí que ela vomitou nos pés do marido.

Quatro Protetores entraram pela porta. Seguravam os elmos espinhosos na mão e as botas pretas ameaçavam quebrar o soalho. Crintyk levantou as antenas e rosnou para os visitantes.

– Pois, não? O que desejam?

Um dos homens não tinha um terço da cabeça, a parte da testa e do olho direito foram substituídas por um grande e grosso chifre. Os outros três eram normais, porém mal encarados. Jogaram mesas e cadeiras para longe sem ao menos as tocar.

– O que pensam que estão fazendo?

– Somos os Protetores de Longamínis, senhora. Como deve saber, devemos proteger essa província.

– E pensam em fazer isso como? Quebrando minhas cadeiras?

– Todos. Me escutem! – gritou o homem, sem ao menos precisar elevar a voz, os presentes já prestavam atenção naqueles de capa negra.

Thomas e Guido conseguiam ver do décimo primeiro andar a movimentação no bar lá embaixo. Apenas com os olhos acima do corrimão eles ouviam a conversa.

– Não saiam daqui. Isso é uma ordem. Apenas digo isso. Lá fora está perigoso demais a uma hora dessas.

Thomas virou-se para Guido e pediu que descessem para saber o que estava acontecendo.

– Nem pense nisso! – exclamou Guido. – Não quero me meter com esses Protetores, não os confio e sei que não estão aqui para o bem. Vamos voltar para o quarto, é o melhor que fazemos. O recado deles já foi dado e nós ouvimos, não saia daqui.

Eles fecharam a porta e voltaram para onde deveria estar escuro, porém as luzes na floresta ainda piscavam incessantemente. Thomas foi até a janela e viu um disco voador soltar um raio constante nas árvores.

– Olhe! É um disco voador!

– O quê? – perguntou Guido, virando para também olhar, mas quando o garoto o fez, as luzes se apagaram e ele não pôde mais avistar nada. – Tem certeza do que está falando? Isso não é possível.

– Certeza absoluta! É claro que é possível, nós estamos em Aquala, sabemos que existem vários outros planetas por ai.

– Eu digo que não é possível porque se for um disco voador, só poderá ser de um lugar.

Thomas engoliu a seco com assombro no rosto, pasmo diante da óbvia resposta.

– Que lugar?

Guido titubeou:

– Meon.

Os barulhos de guizos voltaram a assombrar o hotel.

– Agora estou ouvindo bem alto – Guido tremeu as pernas.

Outro grito foi ouvido do primeiro andar, e logo mais outro ecoou pelas escadas. Corsena levantou, ameaçando relinchar caso a hesitação nos outros andares não cessasse, e no segundo seguinte os outros acordaram.

Nadjo, cujos olhos estavam apertados apavorou-se logo de cara.

– Que barulho é esse? São guizos?

– Não, parecem ser sinos – falou Thomas.

– Não, não… são guizos – o garoto levantou e raciocinou. – Sonhei esta noite com isso. Como não me lembrei antes? Tinha muitos guizos e um palhaço. Foi um pesadelo, na verdade.

Os outros também acordaram assustados e o olharam.

– Um palhaço? – Felipe o fitou, curioso em escutar a história da noite turbulenta que o garoto de black power teve.

Naquele segundo uma luz na floresta acendeu, só que desta vez somente um clarão branco. Todos, agora, focaram numa fileira de grãos cinzas que entrou pela parede do quarto através de um espaço entre uma talha e outra de madeira. Eles se afastaram de onde os grãos se reuniram e um corpo saiu dali. Era um bobo-da-corte, só que a roupa colorida era suja como se fosse um prisioneiro imundo de um calabouço. Ele tão tinha olhos, nariz, nem boca, o rosto era liso e branco, o que deixou os garotos apavorados. Os guizos nas pontas do chapéu colorido fazia um barulho forte nos ouvidos de cada um perto dele, então fugiram pela porta.

– Thomas Flintch, eu encontrei você – disse o espantoso palhaço quando segurou o garoto pelo pescoço. O som nasalado saiu de qualquer lugar menos da boca do bobo-da-corte, já que não havia uma.

– Não! – berrou Laura quando virou para trás. Alguns já desciam as escadas, então ela sozinha conseguiu flutuar uma das camas e jogá-la no palhaço, mas não adiantou. A garota então ouviu o funcionário de Tertius falar para Thomas:

– A gosma do metalitus adiantou.

Naquele mesmo instante o garoto se lembrou de quando estava na escola e um monstro de metal quebrou parte da sala, entrou e o jogou um líquido pelo focinho. Estava claro que aquele material pegajoso foi imprescindível para que achassem Thomas.

O palhaço, ainda segurando o garoto pelo pescoço, fez com que seus casacos se transformassem em areia, e agora ele só vestia uma calça e uma blusa de manga. Logo depois criava feridas no rosto do Flintch, assim como nos braços e no peito. Com a outra mão, aquele monstro da corte puxava o sangue do garoto, que flutuava até sua palma aberta. Pingos vermelhos chegavam a pingar na luva de tão imunda e cinza.

Thomas se tornou mais branco ainda, magro, parecia desnutrido e com os olhos roxos, porém Corsena ficou de pé, apenas se sustentando com as duas patas traseiras, o que fez o garoto e o bobo caírem num buraco que quebrou no chão. Laura se agachou e olhou para baixo, através do rombo onde eles tinham acabado de cair. Ela viu os corpos apenas caindo e quebrando todos os pisos dos andares abaixo.

Guido ainda descia correndo a escada, mas parou quando olhou para trás e se deu conta de que Thomas e Laura não estavam mais ali. Resolveu voltar, mas Ophelia e ele se jogaram no chão quando o piso de elástico do andar de cima quase tocou no soalho onde eles pisavam. Alguma coisa pesada havia caído ali, era Thomas e o palhaço.

Corsena desceu as escadas correndo e derrubou quem estava nos degraus.

– Thomas caiu! – berrou Laura, enquanto corria para o andar de baixo. – Quebre a parede!

Guido subiu um lance de escadas e apontou as duas mãos em direção à madeira do quarto, quebrando-a e jogando pedaços e farpas para os lados.

– Tire-o daí – berrou a sra. Guinard, quando viu o corpo do Flintch pulando no pano elástico. – Tragam-no para cá!

Guido, Felipe e Nadjo precisaram se reunir rápido para flutuar Thomas juntos, já que o garoto era muito poderoso e poder, em Aquala, pesava muito. Eles o trouxeram para o piso perto deles e apenas viram, no rombo na parede, a cabeça flutuante do bobo da corte em meio a uma nuvem de grãos cinzas. Ele olhou bem para todos que estavam em volta de Thomas naquela escada. Os guizos do chapéu fizeram um barulho delicado e ele quebrou outra parede para sair do hotel. E para a escuridão da noite foi aquele palhaço, onde a luz branca da floresta apagou e onde a neve caía lentamente.

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