Capítulo 3 – O saudoso governador Gukpuk.

“O mundo está em constante mudança. Mudar é bom. Mudar para a pior que não é muito legal.” – Ruanliuy Pedevox, ministro da Juventude Social.

NA OUTRA MANHÃ os grãos de gelo já tinham parado de cair, a neve estava mais fofa e Laura, quando saiu da cabana, soube que não haveria mais nevascas como a da daquela noite. Enquanto esperava os amigos acordarem, ela via o céu branco com manchas cinzas espalhadas para todos os cantos, não eram nuvens, simplesmente manchas.

Como Thomas já havia dito à Laura, ele queria conhecer o instituto fundado pela sua mãe antes que o historiador e inventor Arbinelo Treki chegasse por aquelas terras. O garoto queria se mudar para lá com o intuito de ter um lugar seguro e isolado onde pudesse se acomodar sem a intromissão de barulhos de hóspedes do castelo.

Laura pensava em como poderia ajudar seu amigo, e foi olhando para o final das árvores que ela acreditava encontrar respostas. Ela via os troncos que eram mais grossos que cabines telefônicas e enxergava os peixes saindo das anêmonas que eram maiores que ela mesma. Olhava as águas vivas flutuarem no ar como se houvesse água por todos os lados, mas simplesmente não tinha. Ela pensava, avistando os cardumes de peixes levantarem as folhas secas no chão, mas não encontrava respostas, apenas mais perguntas.

“Por quê eu vou fazer isso por ele?” foi a questão que acabou encontrando Laura, e que começou a martelar sua cabeça. Ela não conhecia Thomas nem há um ano e já estava disposta a arriscar sua própria vida para ajudá-lo a procurar os duyoktu e voltar para a Terra. Ela não sabia de que maneira já havia se encontrado naquela situação e nem o porquê de ter aceitado fazer tal tarefa. Sofia e Felipe conhecem Thomas há alguns anos, os laços de amizades entre eles era maior que entre ela e ele.

Laura pensava, olhando para os enormes corais nos troncos das árvores, onde chegavam a criar anéis e passarelas entre um galho e outro. Estava claro na cabeça dela que acompanhar o garoto era o que ela queria, porque de algum modo queria ficar perto dele. Não precisava buscar razões para ajudar Thomas, ambos criaram uma ligação tão forte em tão pouco tempo que qualquer risco transformava-se em prazer somente pelo fato dela estar ao lado dele.

A menina caminhava sobre o lago congelado, onde as árvores não tampavam o topo das torres distantes do famoso e querido Castella Hondeias. No momento em que reparou que, no céu apenas havia bandos de pássaros, alguns deles paleones, ela ouviu uma batida oca, aparentemente no gelo. Não havia nada ao redor dela, afinal encontrava-se no meio do lago Waltz. Ouviu-se outra pancada. A garota começou a ficar assustada, pensou que talvez fosse algum grande peixe lutando para quebrar a superfície congelada. Quando os olhos de Laura se fixaram numa rachadura crescente, ela não pensou duas vezes em correr, já que a quebra no gelo ia aumentando e seguindo a garota.

Quando chegou a pisar na neve em terra firme, uma sereia pulou para fora da água e caiu com a cauda alaranjada ao lado da menina, tinha o cabelo longo que chegava à barbatana e tranças embaraçadas nos fios. Seus traços eram delicados e tinha um rosto perfeitamente humano, exceto pelas guelras nos maxilares.

Laura a olhou com medo no primeiro instante, mas logo em seguida acomodou-se quando viu a expressão insegura da sereia.

– Eu… eu já… eu sei quem você é – falou a garota. – Você é Pisínole, a sereia que rastejou até o Castella Hondeias.

– Sim, sou eu mesma – ofegou, com água pingando do cabelo. – Lamboríe me pediu para vir até aqui.

– Lamboríe? O que ele quer? – Laura franziu a testa.

– Mandou vocês voltarem já para o castelo. O novo governador, Gukpuk, está no salão cujo piso é feito de água. Não chamou muita gente mas muitos estão reunidos lá para ouvir ao discurso. Muitos homens e mulheres estranhos tomaram conta do castelo, acabei de voltar de lá.

– Estranhos como?

– Parecem com a sua espécie, mas não sinto algo bom vindo deles. Lamboríe quer que vão imediatamente para lá – a sereia Pisínole se arrastou na neve, pronta para mergulhar novamente na água congelante.

– Espere! – pediu Laura. – Vou acordar eles, mas receio que demoremos um pouco mais para chegarmos. Teremos que ir a pé.

A sereia confirmou e pulou no lago com pressa, deixando somente Laura com um sentimento ruim. Ela correu pra cabana e pulou no colchão para que Thomas acordasse, mas acabou que todos levantaram bem rápido.

– Ouçam os guizos! Guizos! – Nadjo acordou gritando. O rosto inchado e a remela no olho. Eles o olharam sem medo, encarando-o. – Que o indicador de Phoerios me livre! Era só um sonho.

– Precisamos ir ao castelo – Laura os avisou. – É urgente.

Quando todos saíram da cabana, inclusive Ophelia, Nadjo e Guido, o velho Lutile coçou os punhos, pensando no que iria fazer. De um instante para o outro ele apontou a mão para o telhado de palha e tudo foi se desfazendo. Os troncos no piso se levantaram e foram arremessados em direção às árvores, entrando nelas, assim como os garotos cozitavam. Os tapetes se desfiaram e cozeram os fios de si próprios, tornando-os as luvas de Lutile, assim como o colchão que virou novamente a capa de frio.

O telhado de palha da cabana explodiu silenciosamente e tornou-se as folhas secas e amarelas acima da neve. Em poucos segundos tudo voltou a ser como era antes deles chegarem ali, e eles saíram de lá como se não tivessem passado nem a noite entre aquelas árvores. Todos os vestígios tinham desaparecido de lá, embora não precisassem esconder nada de ninguém. Era tudo uma questão de limpeza.

Os garotos caminhavam para o Castella Hondeias, o único monumento que podia ser visto de todas as vilas e povoados que existiam por aquelas terras. O castelo era algo absurdo, e o fato de ninguém saber quantos cômodos tinha de verdade, o tornava ainda mais grandioso pelo seu tamanho.

Ao redor da torre central havia sete jardins com neve, e bem longe daquele atrás do castelo, onde as esculturas de plantas conseguiam assustar os jovens thonzes, havia uma nascente de um lago que era chamada de “Bacia”. Os aqualaestes acreditavam que aquela água era sagrada, pois além da fonte estar na terra ao lado do castelo, era a única em toda a província que não congelava no inverno.

Os artracóis, raça que tinha traços que lembravam caracóis, eram os que ficavam com os trabalhos braçais e lavavam roupas nessa água. Possuíam uma cabeça e corpo com quatro membros, como os humanos, só que com duas antenas, olhos redondos e esbugalhados e sem queixo, a boca estava logo acima do pescoço. Nas costas carregavam uma concha um tanto menor que seu corpo inteiro, o que os atrapalhava de vestir os roupões feitos com fios de tripa do grande roedor das florestas, Chloetor.

A água da Bacia caía como uma cachoeira, só que a queda era diferente, a água ziguezagueava no ar até chegar num outro lago lá embaixo. Os artracóis transitavam entre a floresta e a Bacia, em cima, através de um caminho com degraus de pedra entre as rochas úmidas da cachoeira. Carregavam cestas com o que colhiam e as levavam para a cozinha do castelo. Essa trilha lembrava uma gruta com goteiras em todos os cantos, e isso apodrecia a madeira que remendava os degraus. Naquela hora todos os artracóis pararam de trabalhar para ouvir o que o governador Gukpuk tinha a dizer, e eles andavam para o salão do castelo.

Quando Thomas, Laura, Felipe e Sofia chegaram no jardim, o discurso já tinha começado, até mesmo quem estava atrás do portão pôde ouvir. Os garotos olharam ao seu redor e viram que alguma coisa estava errada. Além dos aqualaestes como thonzes, humanos e artracóis, muitas pessoas de preto estavam espalhadas pelos arbustos congelados. Eram homens e mulheres com olhares maliciosos. Encaravam todos e não tinham medo em mostrar raiva e crueldade. Pareciam querer briga com qualquer um que passasse perto. Quase todos tinham cicatrizes, mas não eram comuns, seus rostos eram repletos de cortes profundos que não cicatrizaram direito, mas alguns chegaram a não ter um olho, enquanto outros possuíam pupilas inteiramente brancos.

Laura andava perto de Thomas, ela estava bem atenta a tudo o que acontecia perto deles. A menina não tirava os olhos daquelas pessoas, reparava em todos os detalhes. Todos vestiam botas pretas, calças e casacos também pretos, porém eram diferentes uns dos outros. Uma mulher que tinha metade da cabeça raspada se aproximou de Thomas e o fitou descontroladamente, ele teve a sensação de estar sendo caçado por predadores que poderiam devorá-lo ferozmente e sentir seu gosto amargo vazar da carne dura e gelada. Essa mesma mulher devia ter uns trinta cortes no rosto, o que a dava uma aparência rude, desnorteante e ao mesmo tempo sofrida, mas também apavorante. Não tinha uma orelha, pelo pedaço de pele na lateral da cabeça, teria sido arrancada.

Laura segurou firme o braço de Thomas, o medo que o olhar daquelas pessoas trazia tomou o corpo da garota, eram olhos de ódio que ela queria distância.

Dentro do castelo havia um salão redondo e muito grande, com raízes de árvores adentradas pelos vidrais e teto com arcos ogivais. As paredes eram de pedra, as colunas de mármore e o chão era feito de água, mas a superfície estava congelada por causa do inverno. Dezenas de pessoas andavam sobre o piso, plano, calmo e reto, sem escorregarem. Em outras épocas era estranho andar naquele chão, a sensação era de que poderia afundar a qualquer momento, e quando Thomas pisava, seu pé ficava molhado, mas em alguns segundos secava, como se a água evaporasse, só que sem calor.

O governador Blestor Gukpuk estava no final de uma escadaria que se dividia em dois. Ele falava com a população de Longamínis com fervor e usava alguns chifres como alto falantes em seu palanque, para que todas as dezenas de pessoas pudessem escutar as palavras de um homem honroso, sincero e humilde que encantava a todos. Blestor era grande, tinha pouco cabelo molhado na cabeça e suava tanto que parecia estar derretendo.

– Vamos todos falar… quero dizer, contar… quero dizer, cantar… o hino disso… daqui… nossa província – ele sorria em demasia. Se contraísse aqueles músculos do rosto do jeito que estavam, iria acabar tendo sérias cãibras.

– Olhar pra ele está doloroso até pra mim – cochichou Sofia quando cutucou Ophelia.

No salão era hora de honrar o lugar onde viviam, e os longaminianos faziam isso levando a mão direita aberta na altura do rosto. Deviam esticar o polegar, apontando-o para a boca e dobrar somente o dedo indicador. Para os aqualaestes aquele símbolo feito com a mão simbolizava muita coisa importante para que a vida pudesse fluir. Já que o dedo indicador era onde havia maior concentração de poder no corpo de um ser de Aquala, ele era o único dobrado para mostrar que era forte o suficiente para ser o filtro da desonra e da mentira naquilo que era dito.

Perto dos corrimãos estavam alguns dos integrantes do Serviço Aqualaeste Especial em Comandos Intergalácticos, comumente chamado de SAECI, que tratava de todos os tipos de situações no Sistema Beta Atenuati. A maioria de seus membros usavam máscaras de madeira para não serem reconhecidos, outros não tinham problema em se apresentarem publicamente, o que era o caso de Ralphum Baltazar, um tigre siberiano caramelo e listrado.

Um coro de crianças humanas e thonzes, começaram a cantar o hino de Longamínis.

A busca aumentou e não queremos existir

         Caso não haja justiça com grandiosidade

         Numa terra onde peca um disparado prazer

         Que não é pela vontade de expandir

         Que não é pela vontade de crescer

         Que não é pela vontade de criar poder

         Mas sim pela falta da vontade de vencer

        

         A maior conquista vem depois da notícia

         Pois aí a do progresso iria para a lixeira com malícia

         Encanto, verdade e beleza

         A princípio tudo contra o adeus da preguiça

         Ser, poder e invejar

         É tudo o que aos alheios não tem

         Menos que comer só manjar

         Os ventos mudam e aumenta a lixeira

         Acende o medo e apaga a lareira

         Tudo o que resta é urinar de medo na cadeira

         Phoerios olha mas não vigia

         A esperança, felizmente, é a última que morre

         Em Aquala todos viraram assim

         Donos de seus narizes

         E o orgulho não está mais só em mim

O tigre Baltazar sentou-se ao lado de Thomas, que tentava acompanhar ao hino, mas não acertava nenhuma palavra sequer. Quem fez essa letra bisonha devia ter um espírito realmente excêntrico. O tigre disse ao garoto que os Gukpuk pareciam ser normais mas são de uma família bem incomum.

– Muitos integrantes da SAECI os conhecem muito bem – cochichou Balta, cujas palavras saíam perfeitamente de sua boca. – Blestor é estranho mas é capacitado para governar Longamínis.

– Ele era o vice governador? – perguntou Thomas, bem baixinho. – Não me lembro de tê-lo conhecido antes, ou mesmo Lamboríe ter mencionado seu nome.

– Ao contrário de Lamboríe, que foi posto no governo pelas pessoas de toda a província, Blestor foi eleito pela Assembléia Deltimoral.

– Você o conhece bem, Balta? – o garoto franziu a testa.

– Não. O que te incomoda?

– Esses Gukpuk. Não sei o porquê mas olho para eles e não me vem coisa boa. Sinto algo ruim, uma sensação estranha.

Blestor tagarelava seu famoso discurso no palanque, e surpreendentemente havia muitas pessoas tanto para darem seu apoio quanto para criticar o novo governador, mas a maioria apenas estava lá para conhecê-lo, já que muitos só o tinham visto através de revistas.

– Posso chamá-los de filhos? – disse o gordão que cuspia à cada palavra que saía. – Quem é pai, cuida. Eu não tive filhos e nunca vou ter, afinal odeio crianças. Estou brincando, óbvio.

– ISSO É MESMO UM DISCURSO? – falou Felipe, para que todos no castelo ouvissem, mas claro que ninguém prestou muita atenção já que todos estavam espatifados com aquele começo.

– Bom, eu adoro crianças – Blestor sorriu de lado, graciosamente. – Como governador, meu plano inicial é montar alguns projetos para Longamínis, desde o conserto das pontes nas árvores do Vale Menecau até grandes implantações para o cultivo de inderu e a construção de povoados perto do Castella Hondeias.

Gukpuk, então, abaixou a cabeça e apoiou os cotovelos do palanque, para delírio dos jornalistas thonzes que esperavam alguma manifestação do governador acontecer. Blestor ficou sério e com uma aparência mórbida ao decorrer do discurso.

– O governo tem como papel salientar a população da província sobre o que está acontecendo no cenário dentro e fora dessas terras. No mesmo dia em que aceitei o cargo recebi uma notícia que transformaria minha vida, tanto como pessoa quanto político. O ódio de Tertius está na mira de Aquala. Ele quer roubar tudo o que nosso maravilhoso, esplêndido e verdadeiro deus Phoerios nos deu.

Houve burburinhos entre os que ouviam o governador, movimentação como se alguns estivessem apressados para botar em ordem suas vidas graças ao que Blestor tinha acabado de falar sobre Tertius.

– O governo vai precisar de ordem da população – ele continuava. – Não há motivos para se exaltarem. Estamos na frente do Imperador de Meon e ele nunca nos alcançará. Porém eu, como governador, terei que mudar algumas práticas.

– Você gosta desse homem? – Sofia cutucou Laura, e a menina respondeu que não com a cabeça. A impressão que as duas acabaram de ter sobre Blestor era que ele não tinha capacidade alguma pra ser o que a Assembléia Deltimoral havia lhe imposto ser. Ser atrapalhado não era uma boa qualidade para governadores, e além do mais, governadores que demonstravam não se interessar em melhorar. Gukpuk era bobalhão e sabia disso, mas por uma curiosidade, não se importava mesmo com o risco de ser tirado do poder.

– As pessoas de preto ao lado de fora do Castella Hondeias são o que eu chamo de Protetores. Eles vão prezar e cuidar de Longamínis como nunca antes foi feito, e até segunda ordem serão distribuídos na margem da floresta. As matas aquáticas daqui são os locais onde poderá ocorrer o maior perigo concentrado de seres de Meon, e os Protetores cuidarão para que Tertius não infiltre secretamente suas tropas em nossas florestas.

Jervana, umas dos repórteres thonzes que estavam lá na frente, quase junta à escada, levantou uma questão.

– Sr. Governador, as florestas aqualaestes são quase sem medidas, e as longaminianas são consideradas enormes. Graças à sua imensidão, do começo da floresta chega a ser impossível avistar o que ocorre no meio dela. Como o senhor pretende continuar com essa iniciativa de segurança?

– Você é burra? – berrou Blestor na lata. – Já falei que vou pôr os Protetores no começo das matas, será trabalho deles assegurar a tranquilidade dessa província. Caso falhem, terão que pagar por pena de morte, e esse é um outro assunto que quero tratar com a minha querida e saudosa população.

As caras de quem ouvia o governador eram de pessoas assustadas com tamanho ultraje e desrespeito.

– A partir de hoje, irei criar leis que manterão nossa Longamínis a salvo. Qualquer um, seja homem, mulher ou criança, thonzes, humanos ou artracóis, irão enfrentar pena de morte caso não sigam essas novas leis.

Naquele segundo algumas dezenas de pessoas saíram do gigantesco salão, mas não eram do povo, e sim os Protetores que ouviam também o discurso do lado de dentro. Eles encaravam os aqualaestes como quem não tinha vergonha em olhar com profunda inimizade, não mostravam gentileza alguma, quem reclamasse teria que aguentar ainda mais ira. Ninguém chegava a tocar em ninguém, porém os Protetores não hesitavam em mostrar certo rancor pelo povo que lá vivia.

No jardim do Castella Hondeias, os aliados de Gukpuk vestiam suas capas também pretas e um elmo com espinhos, que parecia tornar suas cabeças grandes ouriços-do-mar. Vestidos assim, os Protetores passaram pelos portões e pelo Largo do Castelo. Os mercadores e artesãos que vendiam seus produtos nas tendinhas pararam para olhar aquela procissão através da fonte de água congelada no meio da praça, que estava coberta de neve.

– Muitos de vocês devem se perguntar o que eu estou fazendo – falava Blestor, ainda em seu discurso. – Sou um homem sem escrúpulos… quero dizer, filhos… que veio de família pobre e muito humilde. Quando a Assembléia Deltimoral me concedeu a honra de governar Longamínis, eu soube naquele exato segundo que era a minha vez de amaldiçoar… quero dizer, agradecer… e retornar todo o amor que essa maravilhosa população me deu durante todos esses anos. Eu só tenho a dizer obrigado a todos vocês e falar que esse retorno que eu explicito será, principalmente, em segurança. Tertius nunca tocará neste planeta enquanto eu estiver no poder.

Os flashes e explosões das câmeras fotográficas começaram, e Blestor Gukpuk recebeu um abraço de uma mulher macérrima mais alta que ele, era uma senhora horrorosa que vestia um casacão de pele bege de rapko, ela era Undilla. O cabelo da velha perua era bagunçado, sensual e chique, que mais parecia uma peruca. Ela era coberta de rugas, pálpebras caídas e um pescoço cheio de pele sobrando.

– Como ela é elegante – suspirou Sofia, que logo recebeu um olhar repreensor até do tigre.

– Não acredito que esteja chorando de verdade – disse Felipe. – Olhem bem para ela, está fingindo estar emocionada, limpando lágrimas que não chegaram a escorrer dos olhos.

– Não existe motivo para tal fingimento – falou Balta, fixado no entorno que acontecia lá na frente, perto da escadaria onde estava o palanque. – Os Gukpuk não precisam da aprovação da população. Como vocês viram agora a pouco, Blestor destratou a repórter Jervana, ele não vai se candidatar, já é governador. Se ele tiver que fingir algo, deverá o fazer para os diretores da Assembléia Deltimoral.

– E não tem ninguém dessa assembléia por aqui? – perguntou Thomas.

– Eu estava em cima da escadaria, junto com os membros da SAECI e consegui ver o salão todo, mas não vi ninguém da assembléia.

– Não deveria ter alguém de lá assistindo como a gente?

– Com certeza deveria, garoto, mas ninguém compareceu.

Mais tarde, no quarto de Thomas, os meninos conversavam com Balta, Lutile e Orivundo Gualli, o pai de Ophelia, que era um homem gordo, alto e que usava bigode, cartola e bengala. O tigre siberiano tinha reunido todos para discutirem o que seria feito nas próximas horas, e logo tudo ficou bem esclarecido, eles iam resgatar a tia de Thomas.

Laura e Sofia ficaram encarregadas de fazerem as malas de todos que iam para o Instituto Flintch, e elas tiveram que arrumá-las na pressa, pois naquele mesmo quarto tudo foi resolvido. Já se sabia como Balta, Lutile e o Sr. Gualli atuariam, eles iriam para o hospício abandonado que ficava atrás da fábrica de doces de Orivundo, a Gualeis. Lá era onde, aparentemente, Haydee Flintch estava presa e sendo tratada como louca.

A mãe de Felipe, Rosana Guinard, foi a encarregada de levar os meninos para a nova casa de Thomas, deixada por sua família, o Instituto Flintch. Eles sabiam que, assim como o hospício onde estava Haydee, o casarão estava aos pedaços e abandonado, mas mesmo assim nada mudou a cabeça do garoto.

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