Capítulo 1 – A Criação.

“(…) como o Castella Hondeias, construção erguida na época dA Criação. Suas paredes e muros são reais, mas um toque divino, para sempre, o deixará em pé, segundo crenças dos antigos povos arbeicos.” – A História de Longamínis. QERZIMAE, Bripohlla. Cap. 11 – pg 310.

NADA ERA ESCURO quando se tratava daquela imensidão onde somente havia nuvens, algumas brancas e outras rosas. Aquele era o lar dos deuses. Phoerios era um homem velho de barba muito comprida, tão grande que chegava a dar voltas pelos pés e ser confundida com as nuvens, que era onde os outros deuses também andavam. Ele era o mais alto e sábio, tinha o rosto corado e sobrancelhas tão brancas quanto a neve ou quanto o leite mais puro. Seu rosto era redondo e cheio de rugas, o que mostrava toda a experiência ao longo dos mais de milhões de anos de sua existência até aquela hora.

Uma concha branca em espiral flutuou sobre o chão de nuvens, rodou, e de sua abertura saiu Loosendra, uma bela e paciente deusa que tinha a cabeça coberta por antenas que lembravam fios de cabelos, só que bem mais espessas e que chegavam até as nuvens, onde se mexiam sozinhas. A concha em espiral circulou Loosendra até que ela a pegou e a pôs nas costas, aderindo ao corpo da deusa. Seu vestido branco parecia ser do nevoeiro onde pisava.

Phoerios estava na ponta de um precipício, onde avistava a terra abaixo dele. Era uma esfera negra no meio das nuvens laranjas. Então, ele chamou a deusa caracol:

– Loosendra venha cá! – olhando para trás ele estendeu o braço para que ela se aproximasse. – Veja.

– É agora, não? – ela andou como se não tivesse pernas, apenas deslocou-se como um espírito.

– Onde estão os outros? – perguntou Phoerios serenamente, e fechou os olhos para sentir a brisa que vinha de baixo.

– Estão atravessando o caminho. – ela respondeu.

No segundo seguinte, um leve tornado surgiu ao lado da cadeira dourada de Phoerios, e dele saiu um pequeno ser que tinha a cabeça parecida com a de uma tartaruga, exceto pelos filamentos nas laterais do rosto. As patas também eram iguais, porém com dedos maiores que os dos humanos. Esse deus era chamado de Rusten pelos outros, e não tinha casco algum nas costas como uma tartaruga teria.

Ondinhas surgiram no chão de nuvens, e foi aí que os outros deuses viram corcovas azuis naquele pequeno mar branco. Quando saltou para andar normalmente, Crintyk apareceu. Tinha um tentáculo na cabeça que rodopiava pelo seu corpo comprido e fino. Havia pequeninos buracos rasos espalhados na pele, e, de longe, eram como sardas de uma menina ruiva, só que verdes.

– Quase todos estão aqui, mas ainda preciso do meu bom e velho amigo Dwinler para começar a nossa criação – avisou Phoerios, abrindo os braços para acolher seus queridos deuses. E foi naquele instante que saiu de uma nuvem uma outra nuvem, contudo, essa tinha galhos nos pés e soltava sementes amarelas por onde voava.

– Ainda bem que chegou, Dwinler – falou o pequeno Rusten, num tom amigável e a voz grossa. – Não poderíamos começar sem você.

O deus, que surgiu de outra nuvem, flutuava entre seus amigos e os fazia rir quando os encostava, já que seu corpo quente os dava uma sensação indescritível de felicidade. Dwinler tinha bigodes e cabelo loiro compridos que ondulavam enquanto se movimentava.

O único rosto triste apareceu além das nuvens laranjas que se moviam bem atrás da cadeira dourada. Phoerios sentiu sua presença e olhou para trás, não acreditando encontrar quem ele avistou. Usando um vestido igual ao de uma noiva e tranças jogadas ao vento, a deusa Mindihy se aproximou devagar. Era a mais doce divindade entre aqueles que lá residiam. Seus olhos eram grandes e violetas, o nariz era somente dois buracos no rosto, porém os lábios pequenos em formato de coração eram delicados e rosas. Ela tinha braços compridos e o resto do corpo vermelho para laranja com manchas púrpuras. Os cinco dedos em cada mão eram longos e com bolotas nas pontas. A cauda que a fazia andar era extensa e coberta pelo vestido.

– Mindihy, que bom que veio. – agradeceu Phoerios, segurando-a pelo ombro com espinhos. – Mas onde está Tertius? Ele não vem?

A deusa negou com a cabeça, o que fez suas tranças balançarem.

– Eu entendo. Não poderei mais adiar, temos que criar Aquala agora.

– Ele se recusou a vir porque acha que os poderes que usaremos são inúteis – disse Mindihy, olhando triste nos olhos de Phoerios. – Tertius quer que as raças sejam mais poderosas que as que criaremos. Ele quer que tenham a capacidade de controlar mentes. Isso não é certo, é?

– Receio que não. Você tem o maior coração que eu já encontrei, e sempre almeja dar valor a tudo que pedem, mas nesse caso, Mindihy, você não poderá dar ouvidos a Tertius. Você é a única que organiza os poderes existentes nos projetos desses deuses, e a única que irá colocá-los no corpo de cada raça que criaremos, por isso é integralmente capaz de fazer o que ele quer, mas eu peço para que não o faça.

– Sim, Phoerios, você está certo – ela sorriu. – Tertius não veio porque sabe que está errado. Como fui tão estúpida?

– Você apenas quer agradar a todos, Mindihy. Não se culpe por ter bondade em seu espírito.

Seis deuses já olhavam para o precipício onde a esfera negra repousava entre as nuvens. Phoerios ergueu os braços e começou a balançá-los misteriosamente. Naquele instante eles perceberam que aquela esfera repentinamente deu a primeira volta sob seu próprio eixo e não parou mais.

– Comecem – falou o deus com as mãos esticadas e pronto para pôr seus projetos em dia.

Dwinler se jogou do despenhadeiro e voou até o que ele acabou entendendo ser um planeta. Voou em velocidade máxima até lá e a esfera negra somente aumentava. Atrás dele, poucas gotas de água o acompanhavam, mas logo a massa líquida aumentava. Ele se aproximou da terra escura e sem vida, molhando-a e criando pequenas ondas por onde passava.

Do precipício desceu Loosendra por um tubo de nuvem que ela mesma fez para conseguir chegar à terra. Rolando pela concha espiral, a deusa criava criaturas adultas parecidas com ela. Logo depois foram chamadas de artracóis.

Dwinler voava velozmente e logo os mares começaram a surgir da terra. Ele adentrava o piso negro e quando saía, surgia grama verde, mergulhava no chão do planeta e, no momento em que voltava a voar, robustas árvores cresciam das sementes amarelas caídas pelo caminho.

As mãos de Phoerios brilhavam em azul claro. Uma áurea que foi jogada por ele alcançava a terra do planeta e causava impacto na superfície, criava montanhas imensuráveis e fazia crescer alpes agigantados. Os abalos abriam os mares e faziam ondas colossais muito maiores que Dwinler, que sorria e desviava da agitação que ameaçava cair em cima dele. Era um espetáculo que ele almejava participar há muitos anos, tempo suficiente usado pelos deuses para fazer com que tudo desse certo.

Os artracóis de Loosendra eram nascidos no ar e, antes de postos nas terras verdes e férteis de Dwinler, eram envolvidos pelo poder mágico de Mindihy, cuja ventania e luz que esvaíam das conchas os faziam crescer e brilhar como a luz do Sol.

O pequeno e poderoso Rusten desceu para o planeta através de um tornado nas patas traseiras, que o fazia voar também. Por onde passava, uma chuva de pó prateado era jogada, e, quando tocava a terra verde, fazia exércitos de outros Rustens explodirem. Não era iguais ao deus, mas parecidos. O nome de suas criações eram evies, uma raça sábia e poderosa.

Por onde Dwinler voava, as florestas cresciam atrás. Onde era negro tornava-se azul, verde, laranja, rosa, e muitas outras cores ainda indefinidas. O deus, que voava de olhos fechados, não se prendia a um projeto já definido, ele ia além da imaginação para criar beleza por onde passava.

Phoerios girava o planeta com as mãos esticadas e dedos que balançavam depressa. Ele havia escolhido altas montanhas para elevar muros de castelos, mas quando pensou nas magníficas torres e jardins que poderiam ter lá, se privou a apenas criar um, uma peça única cujo nome seria Castella Hondeias. Logo, as pedras flutuaram e se amontoaram. Em poucos segundos, o espaço onde não havia nada era ocupado por torres altíssimas e outras nem tanto, mas o poder que vinha de lá ultrapassava as expectativas dos outros deuses. Não era uma visão divina e esplendorosa, mas sim uma magnífica cena de amor ao planeta que estava sendo criado.

– Phoerios, qual nome poderemos dar à essa terra tão cheia de vida? – perguntou Mindihy, o observando.

– Aquala. Sempre foi Aquala.

Crintyk sobrevoou acima do penhasco de nuvens onde os deuses antes estavam, e resolveu agir de lá. Ela abriu os braços azuis para Aquala e fez uma tempestade com a água transparente dos oceanos. Um redemoinho marinho criou uma tromba d’água e de lá saíram thonzes, uma raça parecida com Crintyk, só que ao invés de um tentáculo na cabeça, tinham oito.

Dwinler havia feito árvores imensas nos mares, tão grandes que as plantas amarelas dos galhos mais altos chegavam a ser maiores que os outros troncos das florestas. Crintyk os observou e fez que de seus frutos nascessem cervunis, raça verde que tinha uma bola atrás da cabeça e duas antenas caídas. Essas cristuras cresceram instantaneamente e caíram nas águas, onde puderam nadar como verdadeiros seres aquáticos.

Mindihy, ao lado de Phoerios, fez com que as criaturas de Crintyk se tornassem poderosas, elevando-as também até o céu e fazendo com que pós brilhantes explodissem aos seus redores.

Mais toques e retoques nas montanhas, árvores, mares, penhascos e manchas coloridas no céu, e logo Aquala estava pronta. Phoerios, por pouco deixou escapar sua outra criação, os humanos. De um pedaço de nuvem, o deus os moldou com o sopro de sua boca e o vento de Dwinler, até que Mindihy os envolveu com uma luz branca.

– Pronto, agora é só colocar esses seres na terra – avisou a deusa vermelha.

– Esses são especiais, habitarão Aquala mais que qualquer outra raça. Os humanos são a maior fonte de amor que qualquer aqualaeste poderá encontrar.

– Amor? O que você quer dizer com “amor”?

– Você verá ao longo dos anos, Mindihy, você verá.

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